terça-feira, 1 de março de 2011

O rei está nu

(Excerto do meu arquivo À ESQUERDA DA PESQUISA À DIREITA DA PRÁTICA: UM NOVO REFERENCIAL PARA O PROFESSOR TENDO POR BASE AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO, escrito em 2004. Disponível para download completo na barra lateral)

O rei está nu
As transformações, as renovações, a evolução, são as respostas naturais às crises, daí que toda crise encerra em seu bojo uma perspectiva criativa e permite que se apresente uma nova abordagem para um velho modelo. Tomando por base o princípio que toda mudança pode ser facilitada, mas não dirigida, Thomas Kuhn publicou The Structure of Scientific Revolution em 1962, onde introduziu a expressão “mudança paradigmática”.

Um paradigma é um esquema para a compreensão e a explicação de certos aspectos da realidade. Para nos o paradigma educacional ainda vigente, além de não comportar as mudanças que a nova realidade apresenta, ainda cria um descompasso, podemos mesmo dizer um paradoxo, entre a ciência que se constrói e a que a Academia teima em transmitir ao professor em formação e este impõe aos seus alunos. Parece-nos como a estória da roupa do rei, confeccionada com um tecido que apenas a inteligentzia poderia enxergar. De fato, o velho referencial agoniza e o paradigma emergente fez como a criança da estória, que apontando o dedo para o monarca que desfilava orgulhoso sua nova roupa, revelou a verdade ao gritar: O rei está nú!

A questão do referencial sempre norteou os trabalhos dos pesquisadores, seja na ciência ou na educação, em que pese os paradoxos presentes tanto numa quanto noutra. Ele, o referencial, é o “óculos”* através do qual o sujeito ordena o seu universo, se enxerga e se compreende. Com relação à educação, é facilmente perceptível que a escola mantém-se apegada a conceitos que a ciência vem, sistematicamente, derrubando ou revendo. Para chegar a essa conclusão, basta observar o ensino de Ciências ou folhear alguns livros didáticos de Ensino Fundamental e Médio para Ciências e Biologia, e veremos que apresentam um enfoque acentuadamente antropocêntrico. 

Podemos ilustrar isso com alguns exemplos, tais como:
- a escola ainda aponta que existem seres animados e inanimados. Sem perceber que toda vida é energia, sob diversas formas.
- ensina-se, ainda, que existem duas categorias de seres na natureza: os benéficos ou úteis ao homem, e os nocivos. E com isso o aluno tende a ver a natureza como um local perigoso, onde certos animais precisam/devem ser exterminados.
- ensina-se que o Sol “nasce” no Leste e se põe no Oeste. Ainda que seja apresentado como “movimento aparente”, dá a entender que Galileu estava errado ao afirmar que é a Terra que se move em torno do Sol.

Como aprendemos, um dos requisitos fundamentais da ciência é a premissa que “sempre que se estabelecem as mesmas condições, deve ocorrer a mesma coisa. Isso simplesmente não é verdade, não é uma condição fundamental da ciência” (1999, p.76); noutras palavras, para a ciência já não há mais certezas absolutas e permanentes, porém e tão somente, probabilidades, possibilidades. A ciência, sob esse novo paradigma, está sempre num processo de revisão, sempre buscando uma identidade entre o fenômeno observado e o descrito.

Tomemos a interpretação de Copennhagem, formulada por Niels Bohr e Werner Heisenberg, segundo a qual não há realidade até o momento em que ela é percebida pelo observador; alie-se a isso os trabalhos de pesquisadores reforçando que a natureza dos nossos avós não é a mesma de hoje -“temos uma nova descrição da natureza”, diz Prigogine (1996. p,11)-, e veremos que as teorias descritivas dos eventos naturais passam a ser encaradas como criações da mente humana; meros esquemas conceituais de aproximação da realidade. Em outras palavras, significa dizer que o fenômeno em observação responde conforme a posição que o observador assume.

Dessa forma, a realidade com a qual nos deparamos é uma ilusão ou como diziam os antigos mestres hindus: este é o mundo de Maya**. Dito desta maneira, tal afirmação pode parecer algo tão complexo quanto absurdo, mas devemos ter claro que o homem tende a ver a natureza como um agregado de sensações que, quase sempre, só existem na sua mente. Nessa perspectiva, nossas impressões não passam de construções mentais. Tomemos, por exemplo, as sensações físicas de frio e quente, de prazer e dor, ou impressões como amargo e doce, odores, cores etc., todas são originadas na mente humana.

A natureza é, pois, fruto da mente, e tende a assumir aspectos e contornos das concepções do sujeito que a observa. Se assim considerarmos, notamos o quanto o modelo hegemônico de educação, centrado no paradigma mecanicista clássico, nos distancia da realidade que se desvela aos que estão despertos. De fato, o rei está nu em pelo.
Crédito Imagem: http://blig.ig.com.br/
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*O amálgama cultural (moral, filosofia, religião, ciências etc.) que dá suporte ao conjunto de concepções, conceitos e pré-conceitos que o sujeito emprega para compreender e descrever a realidade.
**Maya é a deusa hindu da Ilusão ou da Aparência. Essa relação entre ciência e misticismo está magnificamente explicitada n’O Tao da Física, de Fritjof Capra.


Referências
PRIGOGINE, Ilya. O fim das Certezas: tempo, caos e leis da Natureza. S. Paulo: UNESP, 1996.
___________. Construir as Competências desde a escola. Porto Alegre: ArtMed, 1999.

2 comentários:

filha da selva disse...

É... Nosso ponto de vista continua criando
os objetos.Parabéns pela postagem.

Franz disse...

Obrigado, e volte sempre.

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