segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cenas de Belém 9

Seria uma parada de ônibus comum numa rua comum se não tivesse uma rede armada de ponta à ponta, um casal deitado nela e algumas tralhas ocupando totalmente o banco. Um acampamento? Uma morada?

Indo para o trabalho no NTE fui passando bem ao lado. A mulher saiu da rede e sentou-se no encosto do banco de cimento. Mas que absurdo!- pensei. Passei... Então senti pena. Parei e voltei. Pedi licença para fotografar e por no blog. Fotografei com o celular. Ele, que já me fez fotos muito melhores, nessa me decepcionou. Deixou-a tão desfocada, sem qualidade, triste tal qual o objeto que fotografava. Ou foi o olhar que ela me deitou  ao ser fotografada que nublou a lente...?
Conversei. O nome dela é Ana e o dele é Luiz Gonzaga. Ela aparenta  não mais que 30; ele  uns 40, talvez pouco mais. Ela de Belém, ele do interior de Marapanim. Disse que eram casados, talvez querendo garantir uma dignidade já esquecida. Perguntei se ele estava doente. - Não. Apenas cansado, disse ela.

Disse que vinham de São Brás, que vendia amendoim. Uma lata de amendoim no chão guardava quatro pacotinhos. Não havia carvão aceso na lata. Pra ajudar dei cinco paus e pedi um. Frio feito bunda de pinguim! - Ah! Mas estão bons - disse ela. Dizer que aqueles amendoins estavam bons é o mesmo que dizer que Alexandre Frota e Rita Cadillac eram bons atores e  seriam novo par romântico da nova novela das 6, ou que o BBB é um programa pra gente inteligente.

Disse que estava muito triste, que tinha uma filha tomada pelo Conselho Tutelar e que achava que nunca mais veria a filha. Queria ajuda. Perguntei o que faria com uma filha naquelas codições. Ela começou a chorar. Não sei se era fingimento. Fui embora.

Pobreza, miséria, desamparo, angústia, sofrimento, abandono social etc, não só cenas de Belém. Essa poderia ser uma cena de qualquer canto desse país.

5 comentários:

Rocio Rodi disse...

Ei Franz,
Triste cena que tua lente capta para mexer com nossas emoções. Sensibilidade crítica, gesto solidário, tristeza na partida, talvez indignação com tal realidade a nos estampar. Detalhes das contradições de muitas grandes ou pequenas cidades.
Bom foco...
Maria do Rocio

Franz disse...

Pois é, amiga Rocio, a crueza da vida e a suavidade da poesia muitas vezes se unem para aumentar nossa dor. Aliás, essa é a única coisa que faz o homem evoluir: dor.
Abraços

Prof. Adinalzir disse...

Cena triste que retrata a realidade de Belém e também aqui do meu Rio de Janeiro. É uma cena do cotidiano, que por sua vez faz parte da História dos homens e da sociedade.
Uma reflexão digna de um João do Rio!
Abraços fraternos!

Franz disse...

Caro companheiro Adinalzir, bom dia!
Realmente, essa é a realidade de qualquer canto, de qualquer povo. É a realidade da humanidade: o descaso pelo outro, a falta de caridade, de solidariedade...
Forte e fraterno abraço dessa Belém nubladíssima

ericsiqueira disse...

Fantásticas suas percepções de Belém.Coloque mais. abraço

No TOP BLOG 2011 ficamos entre os 100 melhores da categoria. Pode ser pouco para uns, mas para mim é motivo de orgulho e satisfação.
Sou muito grato a todos que passaram por essa rua que é meu blog e deram seu voto. Cord ad Cord Loquir Tum