sábado, 24 de janeiro de 2009

O Planeta Movido a Internet é Escravo da Tecnologia

Se há uma coisa que gosto é da nossa cultura popular, principalmente as da região Norte e Nordeste, afinal sou alagoano de nascimento (de Pajuçara- Maceió), embora tenha ido para Nova Iguaçu (RJ) ainda um bebê. E, ainda que minhas referências mais significativas estejam em terras iguaçuanas, como nordestino, filho e neto de nordestinos , só poderia carregar no sangue e na alma um buquê de aromas, sabores, sons e cores do Nordeste.
Uma das manifestações do folclore nordestino que mais gosto são a literatura de cordel e os desafios entre cantadores repentistas. Aprendi um pouco sobre essa arte popular belíssima com um dos maiores poetas populares e repentistas do Brasil: José João dos Santos, o Mestre Azulão , morador de Nova Iguaçu, amigo da família do Mestre Vitalino e amigo de meu falecido pai, Waldick Pereira.
Sempre de chapéu, óculos ‘ fundo de garrafa’ e uma memória prodigiosa , Azulão contava causos que nos fazia chorar de tanto rir. Assisti a vários shows do Azulão, tanto em escolas quanto na Feira de S. Cristovão, e conversei muito com ele, lá no Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu-IHGNI, do qual meu pai foi fundador e presidente, até sua morte em 1984. Cheguei até a fazer a capa de um de seus cordéis sobre N. Sª. Aparecida (quando encontrá-lo, entre meus guardados, irei escanear e colocar aqui).
Com ele aprendi sobre outros poetas e cantadores, como Cego Ederaldo e Zé Limeira, o “poeta do Absurdo” da Paraíba; ri muito das histórias que seus olhinhos miúdos, por detrás das grossas lentes. testemunharam, registraram e ele desaguava em forma de versos. Dele ganhei um LP com seu depoimento gravado pelo Museu da Imagem e do Som , uma raridade. Foi assim que aprendi a gostar de cordel, de cantorias e desafios de cantadores; a reconhecer uma sextilha, um decassílabo, um Martelo Agalopado, um Martelo a beira mar, um quadrão oitavado. Me lembro de uma frase de uma poesia que ouvi dele: “Naquele lugar a aurora era tão bela, que Cristo da janela se debruça pra espiar”.
O poeta popular do interior do Nordeste, na rudeza típica do agreste que endurece e tempera o caráter, e na singeleza de seu fazer cotidiano, que veste sua alma de poesia e revela sua natureza humana solidária, encontrou o mote de sua vida. Aprendeu a cantoria de viola, a improvisação do verso e da trova, as rimas ricas e a métrica perfeita de uma sextilha ou um decassílabo bem arredondado, não foi num banco escolar, foi vendo e ouvindo. Aprendeu porque é de sua natureza aprender aquilo que está em sintonia com sua essência. Acho que aprenderam a poesia popular e a tocar viola ou rebeca, por osmose.
Atualmente, acontece em Pernambuco um Desafio de Cantadores, que resgata a beleza das disputas entre repentistas que devem provar seu valor no improviso, na criatividade do verso bem rimado, na agilidade do estilo e no açoite cortante da palavra que desbanca o desafiante.
"Os Nonatos", dupla composta por Raimundo Nonato (Paraíba) e Nonato Costa (Ceará), são considerados uma das melhores duplas de cantadores e repentistas, sendo famosa também por compor para grandes bandas de “foró”, como Aviões do Foró, Mastruz com Leite, Caviar com Rapadaura, Saia Rodada. Você, amigo professor Veja e ouçam que primor de poesia, original e muito bem elaborada em decassílabo, cujo mote é "O planeta movido a internet é escravo da tecnologia". Pode ser um excelente material para suas aulas.

4 comentários:

SAM disse...

Olá Franz!

Obrigada pela visita no blog Sam e pelo gentil comentário sobre uma pequena postagem do mestre Azulão. A fotografia ruim, de celular, contudo o brilho de Mestre Azulão é grande e insuperável. Seu nome é um patrimônio da cultura popular nordestina.

Não....Não parei as postagens do Sam. A última é do dia 19 do corrente mês. Mas pela quantidade de blogs que edito atualmente fica impossível postagens mais amiúdes ou regulares, embora procure não passar de quinze dias. Estou de férias, mas sempre presente de alguma forma.

Não sei se você foi criado em Nova Iguaçu....Somos da geração dos cinqüentões...Claro que tenho conhecimento do seu pai, um dos fundadores do IHGNI, ao lado de Ney Alberto Gonçalves de Barros.

Cego Aderaldo foi um dos mais famosos da cultura oral e Zé Limeira é o poeta do Absurdo que até hoje uns dizem que existiu e era isso mesmo e outros dizem que se trata de uma lenda.


Antes de se chegar aos modernos é bom passar pelo velho Pinto do Monteiro, maior cantador da terra e pelos irmãos Batista : Otacílio, Dimas e Lourival. Ainda vivos estão o grande poeta Pedro Bandeira e Diiniz Vitorino , insuperáveis na arte como Ivanildo Vilanova.

Sou iguaçuana de nascimento e resido em Nova Iguaçu , que acabou de completar 176 anos. Procuro, na medida do possível, divulgar nossos talentos. Sou casada com um paraibano que é defensor e pesquisador da cultura popular. Foi um enorme prazer a sua visita.

Abraço

Conceição EJA disse...

Oi Franz

Tentei fazer como minha filha, nativa digital, e ouvir enquanto via outras coisas... Mas para mim isto ainda não é possível, tive que parar e prestar atenção na letra.
Temos muitos alunos nordestinos na EJA, e embora não estejam, em sua maioria, familiarizados com todas as tics apresentadas no cordel, convivem com umas tantas.
Acho que a letra dá um bom "mote".

Claudia disse...

Franz
Estamos pensando em um evento de blogueiros (tipo relato de experiência+oficina+seminário).
Tenho certeza que você poderia contribuir.

Robson Freire disse...

Olá Franz

Que legal esse resgate. Na minha família, os meus avós paternos imigrantes Nordestinos sempre me levavam a feira de São Cristovão, pois lá era onde eles realmente se sentiam "em casa".

Fecho os olhos e revivo os sons e os cheiros daquele lugar fantástico. Chegar na casa de meus avos era sempre um prazer pois na vitrola havia sempre um disco de forro (quase sempre do Velho Lua que era a paixão de minha Vó).

Quanto ao cordel o meu avô era uma consumidor voraz e tinha sempre muitos espalhados pela varanda da casa e na semana seguinte ia trocar os já lidos com os seus amigos.

A importância de se resgatar e divulgar todos os gêneros literários de nossa cultura popular é fundamental para a preservação da identidade do povo brasileiro.

Parabéns pela maravilhosa postagem

Abraços

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