domingo, 18 de janeiro de 2009

MATEMÁTICA DE COZINHA NÃO VAI À ESCOLA

Caro leitor, nessa postagem quero lhe falar sobre algo de que gosto bastante: Matemática, ou melhor, Etnomatemática. Ah! Não faça essa cara, e nem se vá para outro blog. Espere! Não vou falar da hermética Matemática acadêmica, ou da mística Matemática Divina (sim, há uma, sabia?). Falarei da Matemática que você emprega nas coisas simples do seu cotidiano, mas nem se dá conta, como aquilo que denomino “Matemática de cozinha”. Já observou quantos conhecimentos matemáticos são necessários para preparar um bolo, uma lasanha, um pão caseiro, um Cassoulet ou Ratatouille? Dia desses provei para a minha empregada, enquanto ela preparava uma caldeirada, o quanto ela sabia de Matemática.
A nossa cozinha sempre esteve rica de Matemática e mal percebemos, talvez porque essa Matemática não seja valorizada pela escola.
O fato é que, para preparar qualquer prato, assim como comprar os ingredientes, é necessário conhecer e empregar algumas unidades de medidas, como o Grama e o Litro. Mas há outras que utilizamos diariamente sem a cerimônia acadêmica dessas duas. São as unidades de medida não convencionais, que fazem parte do que chamamos Matemática Cultural, Matemática Materna ou Etnomatemática. Etnomatemática é um conceito criado pelo eminente matemático brasileiro Ubiratan D’Ambrosio.
Você já deu "uma tragada"? Num cigarro, claro! (Desculpe, eu sou antitabagista, mas é apenas a título de exemplo, certo?). Já tomou "um gole", já usou uma "pitada de sal", um "fio de óleo", "um punhado" de farinha? Já comprou uma “mão de milho”? Pois, então, já empregou essas unidades não convencionais. E se buscar com cuidado, acabará encontrando outras unidades para medir quantidade, massa, volume, área, comprimento e tempo típicas de sua região.
É o caso de algumas curiosas unidades de medidas encontradiças nas muitas comunidades ribeirinhas do Pará, tanto em corriqueiras transações comerciais quanto em atividades de plantio, colheita, pesca, fabricação de instrumentos. Quando cheguei aqui achava estranho ouvir alguém dizer, por exemplo, que vendeu dez rasas de açaí; que comprou um frasco - ou um paneiro - de farinha; que comprou um litro de camarão, uma pêra - ou um cofo - de caranguejo, uma mão de milho; que tem uma tarefa para roçar, que plantou uma carreira de eucalipto, que tem “uma linha de arroz para apanhar”, que viu “uma sucuri com 16 palmos de pé”.
Inspirado em Ubiratan D’Ambrosio, este blogueiro concebe “a disciplina matemática como uma estratégia desenvolvida pela espécie humana ao longo de sua história para explicar, para entender, para manejar e conviver com a realidade sensível, perceptível, e com o seu imaginário, naturalmente dentro de um contexto natural e cultural” (1996, p.7). No entanto, é preciso esclarecer o conceito de realidade que estamos empregando: “here we understand reality in its broadest sense (i.e. natural, physical and emotional, into which the individual is immersed) and individual as an element of this reality wich, being part of it, performs inteligent actions, which will reflect upon this reality” (D’AMBROSIO, 1985, p.15).
Nessa teia do fazer cotidiano em que o indivíduo está imerso, e que constrói e reconstrói incessantemente, despontam vez ou outra alguns nós que revelam particularidades na relação do sujeito com o todo circundante, e ao observá-los podemos identificar as ferramentas (cognitivas, dialógicas ou concretas) que ele cria ou se apropria, na tentativa de entender, explicar, problematizar e propor soluções. E as relações entre as práticas sócio-culturais e a matemática oral ou dialógica, seja dos caboclos ribeirinhos, seja dos feirantes no Ver-O-Peso, seja do lavrador, do pedreiro ou da minha empregada, se evidenciam nesses elementos nodais.
Entretanto, a tese que norteia nossa ação pedagógica deve ser a de que o conhecimento matemático resulta das interlocuções estabelecidas pelo homem com os elementos culturais do contexto no qual é produzido. Quando assumido como linguagem, esse conhecimento torna-se um recurso fundamental no exercício de leitura da realidade, voltado à elaboração de soluções dos problemas cotidianos na caminhada pela melhoria da qualidade de vida. É preciso levar a Matemática da cozinha para a escola.

Referencias
D'AMBROSIO, U. Educação Matemática: da teoria à prática. Campinas: Papirus. 1996.
_____________. Sócio-cultural bases for a Mathematics education. Campinas: Unicamp. 1985.

5 comentários:

Eliana Gerânio Honório disse...

Senhor,
há uma banheira a sua disposição lá no Espaço Mensaleiro.

Espero que aceite.

Se o blog é sua rua
bote uma banheira dentro.

Beijão!

Eliana

Prof. Adinalzir disse...

Caro Franz. Infelizmente eu fui aluno da chamada hermética Matemática Acadêmica, ou da mística Matemática Divina, como você mesmo diz. Hoje eu percebo que a Matemática está presente em todo o nosso cotidiano. O problema é que o ensino ainda permanece hermeticamente fechado e cheio de vícos por parte da maioria dos nossos professores. E digo isso com tristeza, pois nunca fui um bom aluno em Matemática, pois só tive professores ruíns.
Saudações cariocas, com muita chuva por aqui.
Adinalzir Pereira
http://saibahistoria.blogspot.com
www.historiaecia.com

Anônimo disse...

Franz,

Saltou-me o olhar o Ubiratan D'Ambrósio, pelo simples fato de que sou pedagoga apaixonada pela matemática. Uma coisa rara, não é mesmo? Você pode achar estranho. Fui a gestora do projeto Planetário do Pará e trabalhamos com o olhar do homem amazônida para o céu. Assim ganhamos o 1o. lugar do prêmio Jabuti, na categoria dos didáticos, em 2000, com o livro "O céu dos índios Tembé". Esse foi o meu ideal, pena que não foi para frente, a intenção é que houvesse mais pesquisas com outras tribos. Quando li sua forma de ver as medidas da cozinha, me fez lembrar das distâncias das estrelas, parece incomum, mas, os índios Tembé tem uma forma de medir também. Legal, né?
Parabéns por essa sua trilha na informática educativa, a matemática seduz e consegue ter um olhar interdisciplinar. Que bom!
Um abraço!
Maria do Rocio
Coordenadora de Educação da Escola Bosque

cleidi disse...

Parabéns pelo Blog!
"MATEMÁTICA DE COZINHA NÃO VAI À ESCOLA", maravilha, esse relação, mas penso que nos dias de hoje é ESSA MATEMÁTICA VAI SIM À ESCOLA, essa matemática está aplicada ao cotidiano dos alunos e são muitas aplicações utilizadas em nossas aula de matemática. E abrilhantou ainda mais com as palavras do nosso admirável matemático e coléga Ubiratan D'Ambrósio.

Beijos!!!!!!

Cleidi Tamaributi

Profª de Matemática
Cascavel-PR

Anônimo disse...

´Não me venha com tretas !!

Tchauzinho !!

No TOP BLOG 2011 ficamos entre os 100 melhores da categoria. Pode ser pouco para uns, mas para mim é motivo de orgulho e satisfação.
Sou muito grato a todos que passaram por essa rua que é meu blog e deram seu voto. Cord ad Cord Loquir Tum