quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cenas de Ruas de Belém 3

Mais cenas de Ruas de Belém

Como já está se tornando um hábito  -que pode vir a ser uma tradição- deste blog,  a cada fim de mês temos uma postagem especial que denomonei "Cenas de Ruas de Belém." Desta feita apenas tomei por mote algo que sou grande apreciador desde 1969, quando ingressei no Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu (RJ) e que tem, gradualmente, desaparecido de Belém: as fachadas de velhos casarões.

Estes dois prédios ao lado ficam na Trv. Padre Eutíquio, centro da capital, ao lado do Shopping Pátio Belém, o 1º da cidade.  Note o que está num estado de total abandono. Ele ainda guarda a imponência do passado, e hoje é o vizinho feio do Shopping. Me dá uma profunda tristeza contemplar isso. 

Logo defronte ao Shopping Pátio Belém há uma rua estreita, chamada Rua dos 48. Nela registrei o belo prédio abaixo. Mas o que me chamou a atenção nele não foi sua fachada azulejada, mas  foi o frontispício (em detalhe). Retirei os fios elétricos da foto para oferecer uma melhor imagem.

O curioso deste frontão é que ele traz alguns símbolos místicos e esotéricos de origem hindu e hebraica, que formam  o sêlo da teosofia, o símbolo oficial da Sociedade Teosófica de Blavastky.

Vê-se, em sânscrito, a representação gráfica do som primordial AUM,  o sagrado pranava OM.   Abaixo dele podemos observar a milenar cruz suástica, inclinada de 45º, que simboliza o eterno movimento cósmico; no centro temos dois triângulos equiláteros entrelaçados que representam o Princípio Universal da Dualidade, os processos de involução e evolução, e formam a conhecida estrela de Davi.
Dentro da estrela uma cruz ansata (egípcia), símbolo do domínio do espírito sobre a matéria onde o espírito esta preso. É uma bela alusão ao apelo sexual que macula a pureza sexual criada por Deus. E tudo circundado por Ouroboros, ou a serpente, que representa o princípio sem fim, mas que alguns vêem como o Diabo.

Ainda próximo ao Shopping passam a Rua Veiga Cabral e a Acipreste Manoel Teodoro. Elas formam a Praça Coaracy Nunes, uma minúscula praça que, por conta de sua forma triangular, é popularmente chamada de Praça Ferro de Engomar.

Como gêmeos, os dois bonitos prédios ao lado estão diante desta pracinha, e a parede de azulejos com o portão também.

O grande muro coberto de azulejos portugueses apresenta um interessante frontão triangular, encimando um portal que no passado devia ter um magnífico trabalho de azulejaria (veja o detalhe abaixo), desgraçadamente destruído quando colocaram um grande portão de maderia, provavelmente para uma garagem.

É penoso, para que aprecia e respeita essas belas e artísticas manifestações arquitetônicas de antigamente, se deparar com o estado em que elas se encontram hoje, seja pela ignorância ou dificuldades financeiras de seus proprietários, seja pela ambição imobiliária ou pelo descaso do poder público que deveria preservar tais tesouros. 

Esse acervo histórico, artístico e cultural da cidade é um patrimônio de seu povo, é sua memória, mas parece que todo mundo pensa que a memória histórica é para ficar apenas nos livros.

Os velhos casarões, belos e imponentes, orgulhosos de sua história e função não podem sozinhos resistir ao apelo do mercado imobiliário, e a arte dos antigos mestres de obras, pedreiros e  carpinteiros vai desaparecendo irremediavelmente. Não há beleza artística nas fachadas modernas, e se continuar assim não haverá mais nenhuma fachada bonita que embeleze a cidade, e fale de sua história para mostrarmos aos nossos filhos ou simplesmente para que possamos apreciar num passeio pela cidade .

9 comentários:

Prof. Adinalzir disse...

Prezado Franz

Essas cenas das ruas de Belém se repetem em muitos lugares. Aqui no Rio de Janeiro acontece a mesma coisa. São prédios históricos e outros monumentos que se vão, fruto do descaso e da falta de preparo de pessoas e autoridades públicas que deveriam zelar por esse patrimônio.
Infelizmente, ainda falta muito amor e conhecimento para que o nosso povo possa preservar. Falta mais educação.

Parabéns pelo texto e pelo seu talento de cronista e historiador!

Abraços, :-)

Franz disse...

É verdade, caro Adinalzir, o patrimônio histórico e arquitetônico brasileiro está desaparecendo não só em Belém. A educação pode ajudar a preservar, mas não acredito que sirva para manter em pé as velhas e belas residências. Acho que vou fazer mais postagens assim.
Franz

giggiafiuza disse...

Oi,amado.Há quanto tempo.Muitas saudades!!!!Preciso conversar e marcar com você, ajudas técnicas.Bjs

AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL disse...

Estimado Franz Pereira.

Faço coro às sapientes palavras do Professor Adinalzir no que diz respeito ao gradual desaparecimento e belíssimas residências e antigos prédios e sobrados. A especulação imobiliária está atuando com todo o rigor. Na Cidade do Rio de Janeiro, os bairros que mais sofrem essa perda irreparável são os do Subúrbio. Recentemente, saiu na Imprensa a notícia de que alguns imóveis localizados no Largo do Campinho serão destombados, desapropriados e demolidos para dar passagem a construção do TRANSCARIOCA, um corredor especial para ônibus, ligando a Barra da Tijuca ao Aeroporto Internacional do Galeão (uma das metas para a Copa do Mundo de 2014). Veja a matéria na íntegra no nosso bog (www.amigosdopatrimoniocultural.blogspot.com). Parabéns pelo seu excelente blog.
A propósito,informe-nos o seu e-mail para enviar-lhe notícias a respeito do nosso trabalho no "Sítio Histórico da Antiga Vila de Iguassu", em Nova Iguaçu.

Abraços,

CLARINDO
AMIGOS DO PATRIMÔNIO CULTURAL
amigosdopatrimonio@gmail.com
(21) 2261-0012 ou 3880-4257 ou 2656-9810 ou 9765-6038

Franz disse...

Obrigado Amigos do Patrimônio Cultural, pela visita e comentário. Voltem sempre, e vamos continuar na luta pela preservação do patrimônio artistico e cultural rasileiro.
Ah! Visitei seu excelente blog e já me tornei seguidor.

José Maria disse...

Queria há muito uma explicação para aquela fachada da rua dos 48. Finalmente achei. Muito obrigado.

José Maria disse...

Queria há muito uma explicação para aquela fachada da rua dos 48. Finalmente achei. Muito obrigado.

Anônimo disse...

Vejo com tristeza nosso patrimônio histórico sendo perdido ano a ano. Belém carece de centros culturais, casa da memória ou afins, e não temos !!!!!!Salvo os museus do estado e do município, não temos o que visitar, é lamentável. O Palacete Pinho foi restaurado mas permanece fechado....o Palacete Faciola (da Av Nazaré) está caindo aos pedaços, o Palacete Ferro de Engomar é outro exemplo muito triste. Lamentável.

Franz Kreuther Pereira Pereira disse...

É triste observar a beleza e a arte presentes na arquitetura antiga desaparecerem sem provocar comoção nos gestores públicos nem na população. Obrigado pelas visitas e comentários.

No TOP BLOG 2011 ficamos entre os 100 melhores da categoria. Pode ser pouco para uns, mas para mim é motivo de orgulho e satisfação.
Sou muito grato a todos que passaram por essa rua que é meu blog e deram seu voto. Cord ad Cord Loquir Tum