terça-feira, 6 de maio de 2008

Os loucos da minha cidade

Como digo no cabeçalho do Blog, aqui é meu rio e minha rua, onde escorrem cenas do meu cotidiano de buscador, de educador, de aprendiz, de pai. Por aqui navegamos eu, meus amigos e minhas criações. A postagem anterior me lembrou deste conto, que escrevi faz alguns anos. Se gostar não se acanhe em deixar seu comentário.
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Aquele início de tarde junina estava extraordinariamente quente, e se querem saber, duas coisas me deixam particularmente irritado: calor e viagem em coletivos. E, para meu azar, sobra calor nessa cidade e me falta dinheiro para comprar um carro com ar refrigerado. Com esse estado de espírito cheguei à parada de ônibus.
O calor e a demora dos coletivos também parecia afetar o humor das pessoas naquela parada de ônibus. O meu mau-humor era visível, ainda mais com o suor escorrendo suvaco e costa abaixo, empapando a camisa.
Olhei em frente e um pouco à esquerda para além da praça, para a esquina por onde desembocam os diversos coletivos que trafegam por aquela artéria, e nesse instante o vi. Atravessava a rua asfaltada em nossa direção. Ainda não era “o louco”, mas um pobre coitado qualquer, um dos muitos miseráveis que perambulam maltrapilhos, pedindo aqui e acolá, fuçando lixos, vivendo de rebotalhos.
Trajava apenas uma velha e imunda bermuda de cor indefinida e tão justa que não abotoava na cintura; e aquele Sol abrasador, que me aguniava, parecia não lhe causar qualquer incomodo. Claudicava um pouco. Em um dos pés uma sandália tipo Ridder, no outro uma sandália de dedos, tipo havaianas.
O pé com a Ridder pisou a calçada onde estávamos. Olhei-o rapidamente (com certo asco, confesso): - “Será que esse sujeito vem se abrigar do Sol justo aqui? Ou veio pedir dinheiro? Dinheiro, não dou, é contra meus princípios!”, pensei. - Quanto ao lugar à sombra dei de ombros, mas ameacei uns passos na tentativa de buscar outro canto. Contudo o espaço sombreado era pequeno e já estava todo conquistado. Resignei-me.
Olhei para além da praça mais uma vez. Nada do meu ônibus surgir. Com o canto dos olhos conferi que o mendigo (ainda não era “o louco”) permanecia olhando-nos calado na mesma posição: um pé no meio fio e outro no asfalto. Somente os olhos se mexiam, mas não fixavam ninguém em particular.
As pessoas na parada de ônibus forçavam indiferença, fingindo não perceber sua presença silente e cada vez mais incomoda. As mais próximas recuaram um pouco. Um ônibus despontou lá na esquina, contornou a pequena praça descrevendo um grande semicírculo e estacionou rente a ele, e ele nem. Embarcaram os que tinham que embarcar, apeou-se quem tinha de apear-se e o coletivo seguiu viagem. O louco (eu já começava a achar que aquele indivíduo ali parado não era muito bom da cabeça) permanecia do mesmo jeito. Derrepente, feito um vulcão inativo que desperta, explodiu em palavras e perdigotos:
- Falsos! Falsos! Pensam que não sei, é? Eu sei! Eu sei!... Braço e dedo em riste, como cano de metralhadora, iam de um extremo ao outro do grupo a sua frente: - Todos falsos, hipócritas, fingidos!
Reboliço na parada. As mulheres buscaram o fundo. Uma até preferiu enfrentar o Sol escaldante a ficar perto daquele maluco que vociferava contra todos: E se ele resolve-se atacar?
- Cruz credo! - disse uma senhora ao meu lado, persignando-se. Mantive a minha fleuma: “Cão que muito late não morde”, desprezei.
- Eu vou mostrar - gritou o louco (nesse instante eu já não tinha mais dúvidas). Então, enfiou a mão num bolso da bermuda camuflado pela sujeira, tentando extrair algo. A mão, que pela justeza das roupas entrou com dificuldade, mais dificuldade teve para sair. Ele tentava sacar a mão dando repetidos e violentos puxões. Me lembrei da história do macaco velho e da cumbuca e sorri discreto, mas temia que o tecido não agüentasse o tranco. Outra mulher resolveu que era melhor ficar ao Sol do que à sombra com um doido, e foi para junto da primeira, e puseram-se a conversar. Notei que um pequeno grupo de estudantes começava a achar tudo aquilo muito engraçado. Riam do esforço do maluco para sacar a mão do bolso. As outras pessoas também pareciam curiosas.
- O que será que ele tem ali? - perguntou um dos estudantes para um seu colega.
- Sei lá! Vai ver que é um elefante, por isso tá difícil de sair.- E riram um bocado.
A mão escapuliu segurando algo. Era um objeto branco quase do tamanho de um maço de cigarros. Firmei a vista sem descobrir o que era até que ele deu três passos para trás e, abaixando-se, começou a riscar o asfalto. Era um pedaço de forro de gesso.
- “A”! - gritou apontando para a letra de forma que acabara de desenhar no quadro negro da rua -. “A” pode ser de “amor”, de “amigo”, de... - Não tive mais dúvidas. Só um louco falaria de amor e amizade em pleno meio da rua, ainda mais com aquele solzão dos diabos nos costados.
Na parada de ônibus as pessoas esperavam. Umas já sorriam, até. As duas mulheres que estavam ao Sol viram que ele era inofensivo e retornaram.
- “B”! - gritou novamente, repetindo o gesto anterior -. Pode ser de “boca”, de “beijo”, de... -Um dos estudantes disse algo que não ouvi e os outros caíram na gargalhada.
Carros de passeio passavam zunindo ao seu lado. Uma buzina descarregou frustrações e de um dos carros alguém lançou um palavrão: - Sai do meio da rua, f...!!
-...boca que beija, que bebe - continuou ele, alheio a tudo o mais -.
Levantei os olhos para seus olhos. Vermelhos e baços indicavam que devia ter conjugado o verbo “beber” diversas vezes, contudo a voz era segura e clara.
- “C”! Com “C” escrevo “coração”, “cabeça”, “carinho”...
Ora gritava como se discursasse em palanque, ora falava baixo como de si para si.
-“D” é letra divina. Com “D” escrevo “Deus” e “Diabo”...
Novas risadas dos estudantes. Dessa vez ouvi quando um deles disse:- “E doido também!”
- Deus e Diabo, duas pontas do compasso; duas faces da mesma moeda - outro “cruz-credo” da senhora ao meu lado e novo “pelo sinal”- na divina comédia humana.
Comecei a considerar que aquele indivíduo podia ser doido, mas certamente tinha instrução e leitura. Observei-o traçar novas letras no chão, indiferente aos carros, ao calor que subia em ondas do asfalto e, talvez, a própria vida. Me compadecia, aquele sujeito. Olhei para o relógio: quinze minutos de espera! Ia chegar atrasado novamente.
Um ônibus apontou lá na esquina além da praça. Pela cor vi que não era o meu. Absorto em meus pensamentos, esquecera por um momento o louco no meio da rua, até que ouvi:
-“M”!.. Ele não dissera “eme”, mas “me”. E isso atraiu novamente a minha atenção. Foi então que percebi: ele não dizia o nome das letras, mas os fonemas. Olhei para o chão onde estava escrito o alfabeto até o “m”. Não esquecera nem o “k”.
O ônibus entrou na grande curva que contorna a pracinha e aproximava-se veloz. Outros carros também contornavam aquela curva, na mesma direção e sentido do ônibus. As pessoas na parada de ônibus aguardavam. Meus olhos foram do homem no meio da rua ao coletivo que se aproximava e deste ao homem, num átimo.
O motorista apertou os freios que chiaram no asfalto. O ar recendeu a borracha queimada. A buzinada forte assustou o pobre homem que pulou para trás, enquanto a condução estacionava com um rangido de pneus, ocultando-o de minha vista.
Nesse exato instante o grito esganiçado de pneus sendo travados causou-me um sobressalto e o som de um baque violento comprimiu meu peito. Não vi, mas adivinhei o choque. Correria de pessoas contornando o ônibus estacionado. Dele desceu o motorista e alguns passageiros; outros debruçaram-se pelas janelas.
Fui indo devagar, pois já sabia o que encontraria. Cheguei no momento exato em que um jovem descia agitado de um bonito carro branco e juntava-se ao grupo que rodeava o corpo estirado no asfalto.
- Eu... Eu não vi... Não tive culpa... Meu Deus!... Ele... Ele pulou na minha frente, juro...- gaguejava o nervoso rapaz. Estava da cor do pedaço de gesso na mão imóvel do atropelado. Olhou para seu bonito carro e tudo que disse foi: - Meu carro!..
Ouvi alguém ao meu lado dizer “Cruz credo!” e nem precisei me voltar para saber que aquela senhora estava novamente se persignando. Um dos estudantes falou: - “Coitado, se fosse analfabeto ainda estaria vivo”. Apesar das circunstâncias não pude deixar de sorrir ante aquela lógica meio bizarra.
Carros passavam lenta e silenciosamente. O motorista do ônibus estacionado passou por mim: - Vam’bora gente, que eu tenho horário pra cumprir!- tomou seu lugar ao volante, deu duas curta buzinada e partiu.
Outro ônibus aproximava-se devagar. “Até que enfim” - pensei. Enquanto embarcava lancei um olhar para o corpo estendido no asfalto, ao lado das letras brancas e graúdas. Então percebi que ele parara exatamente - e curiosamente - na décima terceira letra do alfabeto, a letra “m”, fonema “me”. O que ele falaria do “M”....? Franz Kreüther Pereira

3 comentários:

Rosita disse...

Gostei do conto!!!
DE LOUCO, TODO MUNDO TEM UM POUCO!
Lucas 12.13-21

Rosita disse...

DE LOUCO, TODO MUNDO TEM UM POUCO!
Lucas 12.13-21

Muito bom seu conto!!!!

Ana Cunha disse...

Que legal!
Esse conto tem de Belém.
Parabéns.

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