segunda-feira, 7 de julho de 2008

O DIA EM QUE NINGUÉM TINHA PECADOS (Conto)

Caro leitor, como é sabido, todo aquele que escreve, escreve para ser lido algum dia, e como de vez em quando me atrevo aos versos e prosas, eis-me aqui com meu mais recente 'cronto' (conto meio crônica).
Ah! Pretendo publicá-los um dia, mesmo que você não goste. Mas se gostar, honre-me com seu comentário, pois no dia em forem publicados, talvez seu ilustre comentário enriqueça minha obra. Assim, desde já agradeço. Franz

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Quando padre Aristides Botelho Di Carli morreu, picado por uma jararaca pico de jaca, Santana de Anajari ficou sem seu mais querido pároco. E como não tinha vigário, as ovelhas ficaram sem pastor, aguardando até que o bispo diocesano mandasse o substituto, fato que aconteceu cerca de um mês depois do enterro do Padre Carli. Ah, era assim que todos o chamavam!

Pouco entrado nos cinqüenta, Di Carli ele era um homem culto, apreciador de ciências e uma figura das mais agradáveis e presentes no cotidiano da cidade. Seu nome era sinônimo de zelo pela educação e de amor pelos paroquianos. Tamanha era sua dedicação, que corporificava o pastor da parábola do Bom Pastor (João; X. 2-18), aquele a quem as ovelhas seguem porque conhecem sua voz. Pode-se imaginar, então, o pesar daquela gente com seu falecimento. Por isso era grande, grande não, amazônica, a expectativa dos fiéis com a chegada do sacerdote substituto, que segundo diziam, com indisfarçável orgulho e satisfação, era monsenhor. Ainda assim, uns duvidavam que o novo padre tivesse o mesmo carisma do anterior, outros tinham certeza, mas todos ardiam de curiosidade. Eis porque, naquele domingo, muita gente veio assistir a primeira missa do novo presbítero, e a pequena matriz de Nossa Senhora de Sant’Anna botou gente pelo bom ladrão. Nem na época do padre defuntado houve tanta gente numa missa. Até eu, que não sou dado a missas, sermões e homilias, naquela manhã dominical, decidi ir conhecer o tal monsenhor.

Estava procurando lugar, quando uma senhora miúda acenou, me convidando. Depois, gentilmente, fez sinal para seus vizinhos de banco se espremerem um pouco e surgiu, então, um espaço para eu me acomodar. Agradeci com um largo sorriso, e quando ia sentar-me, todos se levantaram. Naquele instante, saindo de uma porta lateral perto do altar, surgiu a figura do novo padre, seguido por um diácono e dois ajudantes. Hum, – pensei com meus botões – a diocese estava se prevenindo e fez o serviço completo. Agora, a paróquia tem dois padres...

Quem esperava um sacerdote nos moldes do anterior, se decepcionou. Esse era um velhinho com aparência frágil, usava uns óculos grandes, de lentes grossas e redondas, que parecia uma pequena bicicleta pendurada sobre o nariz. Caminhava sem presa, em direção ao altar. Achei que era para que todos pudessem olhá-lo bem. Trazia as mãos, sobre o ventre, ocultas pelo bonito manípulo bordado. A alva, espécie de camisolão sobre o qual se coloca a casula, ocultava completamente seus pés, mesmo quando caminhava. Cheguei a esperar que ele pisasse na barra da túnica. A estola me pareceu comprida demais, pois suas franjas apareciam por debaixo da bem elaborada casula gótica (provavelmente de damasco). Mas, no computo geral, sua figura era solene e seus paramentos conferiam-lhe a dignidade sacerdotal. - Ego sum panis vivus qui de caelo descendi.

Com essa frase, em puro latim, começou ele a cerimônia litúrgica, e foi vigoroso e fervoroso até o fim. O silêncio imperava na nave da igreja, quando ouvi ao meu lado: - Esse é dos bons, dos bons! O senhor não acha?

Como eu não estava a fim de papo, mal sacudi a cabeça. Mas, considerei que o velho padre aplicava a máxima: A primeira impressão é a que fica! Talvez desejasse impressionar a todos e apagar a memória do antecessor. Bem, ao menos para a anciã, ao meu lado, parece que ele havia conseguido.

Após as leituras proclamadas, o sacerdote começou assim sua homilia: - A Comunhão é o momento em que recebemos Jesus sacramentado na Eucaristia. A Eucaristia é o banquete sagrado, no qual recebemos o Cristo como alimento de nossas almas. Ao comungarmos, entra, em nós mesmos, Jesus Cristo vivo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, com seu corpo, sangue, alma e divindade. Por conseguinte, quem se encontra em pecado não pode receber a Comunhão, sem recorrer, antes, ao sacramento da Penitência. Quem comunga em pecado mortal, comete um grave pecado, chamado sacrilégio...

Silêncio mortal. O padre ia crescendo em corpo e espírito e voz.
- Para comungar não basta o ato de contrição, pois a comunhão significa união, ligação de várias pessoas que formam um só e mesmo corpo. Por isso, o pecado de um afeta a todo o corpo. Então, aquele que tem certos pecados, não venha diante de Deus receber a comunhão...

A voz do velho pastor era firme, autoritária, imperiosa: - Quem freqüenta outros templos ou lugares, como centros espíritas e terreiros de macumba, nem entre na fila. O mesmo digo, também, para quem não obedece pai e mãe... E para aquele ou aquela, que achando algo e, sabendo quem era o dono, não o devolveu, pois isso é o mesmo que roubar.

Por traz do altar a figura do padre crescera. Ele parecia agora mais alto, o que provocou vívida impressão na platéia. Considerei a possibilidade dele ter andado como Grouxo Marx e agora ter-se aprumado, para causar a ilusão de haver se elevado do chão. Bem, talvez eu estivesse sendo muito duro com o pobre, mas o fato é que sempre considerei as missas algo um tanto teatral. E aquele velho padre era um artista!

A velhinha pia e miúda, ao meu lado, me cutucou: - Esse é dos bons, dos bons! Heheheee!! Estava visivelmente em êxtase. Olhei em torno e notei que os fiéis mais conservadores pareciam igualmente impressionados. Sem dúvida, aquele era um sacerdote ortodoxo das antigas tradições. Mas, há ovelhas que gostam mais do cajado que do pastor. Alheio a tudo que não fossem suas regras, agora apontava os céus, como a indicar que suas palavras eram inspiradas pelo Espírito Santo:
- Mulher que usa minissaia, nem se levante. Mulher que fez aborto, essa mesmo é que não deve se aproximar do altar! Também não se aproximem os que se entregam aos prazeres de fornicação. Fornicare pecatum est.

Nesse instante começou o burburinho, ainda tímido, mas anunciando a estranheza geral. O padre saiu de traz do altar e começou a caminhar diante dos fiéis, parando, hora aqui, hora ali. Senti um puxão na camisa e olhei, um pouco curioso, para a velhinha ao meu lado: - Com licença, mas... o que é fornicação? Fiquei em dúvida se respondia ou não. Preferi fazer o universal sinal de silêncio, enquanto apontava para o padre que prosseguia:

- Os crentes devem saber que a ordem moral está acima de tudo. A boa conduta deve ser incentivada, promovida, para que se crie uma roda viva, em que os cidadãos estimulem uns aos outros na prática do que é decente e digno. Por isso, não me venha aqui, receber os sacramentos, quem freqüenta motel ou quem freqüenta prostíbulos... Quem faz sexo em posições não sadias, “tá fora!” Quem pratica a felação, o cunilingus... “TÁ FORA!!”

Outro puxão na camisa: - O que é isso de “conilíngua” e felação, que ele disse? É porcaria, não é? Olhei-a num misto de espanto e mutismo, e assim permaneci por instantes: o que que eu poderia dizer??... Comecei a considerar a possibilidade de ir embora, afinal, eu não ia comungar mesmo. Enquanto isso, o sacerdote senil, sem perceber o desconforto geral (ou, talvez, por isso mesmo!) continuava a peroração intimidatória. E foi sua próxima palavra que me tirou da enrascada. Ao ouví-la, minha vizinha se voltou para o pároco.

- Homossexuais, pederastas ou quem tem qualquer perversão sexual, luxúria e concupiscência também não são dignos de receber os sacramentos. A autoridade fiel aos padrões de Deus encontrará maneiras de prestigiar quem faz o bem e punir quem transgride as virtudes de Sua lei.

Definitivamente, a coisa estava começando a ficar interessante. Esperei que a velhinha me perguntasse o que era concupiscência, mas, nem ela, nem ninguém falava coisa alguma. Eram estátuas de sal, porque olharam para adiante (intimamente ri da minha piada). Na verdade, estavam era processando toda aquela verborragia, enquanto eu só queria ver quem iria receber a hóstia consagrada, depois de todos aqueles impedimentos. E o velho ministro de Deus prosseguia suas exortações:

- Casal que vive junto sem ser casado, mulher deixada do marido e marido que deixa a mulher em casa para se encontrar com a amante, esses nem pensem em vir recebe a comunhão. Ah! E quem se masturba, seja homem ou mulher, viu?

Tremi quando senti novo puxão na camisa. Eu sabia, eu sabia! Virei a cabeça lentamente para a velhinha ao lado, pois já sabia o que ela iria dizer: – O senhor sabe o que ele quer dizer com esse tar de masturba? Não, não sei. – respondi apressado. Não queria alimentar conversa, mas a velha insistiu, desconfiada: - Não sabe mesmo? Para desviar o assunto, perguntei inocentemente: - A senhora não vai comungar? Ela me puxou, obrigando a me inclinar, então disse a meia voz: - Acho que sei o que é masturba... Acho que sei. Uhhh! Não é essa tar de punheta?

Quando sai da igreja, todos, sem exceção, estavam na fila para comungar.

Um comentário:

Luis Carlos Z. Dhein disse...

Frnaz, mais uma vez meus parabéns. Muito interessante seu "cronto" como você diz. E te confesso que enquanto eu lia o texto ficava a imaginar como será o final? Muitas idéias foram me surgindo, e pessoalmente, achei muito interessante o rumo e o fim que você conseguiu dar ao texto. Existem alguns pontos que você pode analisar, mas com certeza se você publicar, será uma obra interessante, pois ao meu ver você traz alguns elemntos ocultos em seu texto, mas isso não é assunto para esse comentário.
Abraços e sucesso.

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