sexta-feira, 6 de junho de 2008

Dia Mundial do Meu Ambiente Interior

Eu queria ter feito este post ontem mas a falta de tempo não permitiu.

O dia de ontem, 5/06/2008, internacionalmente consagrado ao meio ambiente, foi um dia cheio de manifestações e muito palavrório de líderes políticos, de cientistas, de Ongs preservacionistas etc. Talvez tenha sido um dia ecologicamente correto. Dia oportuno para desencadear eventos e ações com foco na ecologia, na preservação de dessa Terra Mãe, Gaia, nossa casa.

Tem-se falado muito em preservar o meio ambiente. Fala-se muito no combate ao desmatamento da Amazônia e em guardar suas matas e rios. Fala-se muito em cuidar da pureza do ar das cidades e em combater a poluição que estupra ouvidos, olhos, pulmões. E editam-se leis para que isso aconteça. É claro que essas leis são para o Homem, pois a Natureza tem suas próprias leis. Gaia sabe cuidar de si, não precisa de nossas leis para isso. Se deixarmos, ela se encarrega de encontrar a melhor forma de consertar o estrago originado pela criatura Homem. Talvez fosse essa a idéia exposta na Bíblia, de guardar o sábado.

Erich Fromm, em seu “A linguagem esquecida: uma introdução ao entendimento dos sonhos, contos de fadas e mitos”, (Zahar, 1996), parte de textos bíblicos (Êxodo, 20:8-11; Dt. 5:12-15; Nm. 4:22) e talmúdicos, para afirmar que “uma análise mais pormenorizada do significado simbólico do ritual sabático mostrará que estamos tratando não com um obsessivo rigor exagerado, mas com uma concepção de trabalho diferente da nossa”.

Em 1994 publiquei “Painel de Lendas e Mitos da Amazônia” (Falângola Editora, Belém), e num pequeno capitulo (pg. 129) intitulado “Uma breve abordagem ecológica” resgatei e ampliei essa reflexão de Erich Fromm. Interpretei o ritual de “guardar o sábado” como “uma evidente medida de higiene social e de advertência ecológica” (sic.). Interpretei “trabalho” como qualquer interferência na natureza e “descanso” como uma forma de o homem estar em paz com o meio circundante. Para mim estava evidente que, há mais de dois mil anos, já havia uma preocupação com desequilíbrio entre o homem e a natureza, e os problemas disso oriundos.

Por isso, hoje quero falar de oikos (eco), que em grego significa “casa”. Não falarei dessa ecologia que todos falam. Estão nos poluindo dela e de sua ideologia. É o que chamo de ecopolítica (o termo existe, mas aqui dou-lhe outra conotação), ou seja, apresenta ações “ecológicas”, mas seus objetivos são meramente políticos. Políticos e líderes falam no plural, mas visam o singular, ainda que seja pelo discurso do wellfare state. Falam para o global, mas focalizam o pessoal. O Capital se veste de verde ou se pinta com genipapo e urucun, se isso lhe aumentar os lucros.

Vestidos com a fantasia da ecologia, empresários megambiciosos, líderes ególatras e incompententes, políticos parasitas ou corruptos, combinam-se para levar comunidades ao colapso, à ruína, à miséria e degradação física. É isso que gera a violência urbana que se tornou característica de nossos tempos.

Essa ecologia imediatista, que visa o homem, é a ecologia rasa que nos fala Capra (Fritjof Capra. A Teia da Vida- Ed. Cultrix/Amana-Key). É rasa como a moral e a ética de quem a pratica. Não é por esse caminho que preservaremos nosso mundo sublunar. Capra também nos apresenta a alternativa da ecologia profunda, um novo conceito de consciência das relações homem-mundo, que avança por sendas místicas e filosofia oriental.

Falamos demasiado em proteger o meio ambiente, a fauna, a flora, o óikos donde habitamos, mas permanecemos totalmente esquecidos do ambiente que somos nós. Cada um de nos é um micro universo, um mini mundo, dentro do qual se desenvolve uma metrópole polifônica, policrômica e polifacetada. Nela habitamos como os muitos que somos nós. Sim, nossa personalidade é formada por cacos de outras personalidades: copiamos de um a forma de usar o corte de cabelo, de outro o jeito de vestir, de outro mais a maneira de agir em público.

Somos uma colcha de retalhos inconsútil, ou seja, um conjunto de retalhos sem costura. Retalhos costurados numa única tessitura, partes distintas num todo único. Tudo influencia tudo. O indivíduo e o universo estão unidos e se pertencem mutuamente. O que quero dizer é que o indivíduo que não cuida de seu ambiente interior, de seu universo íntimo, não pode ser capaz de demonstrar cuidados com o ambiente ao seu redor. Ele continuará jogando papel ou garrafa plástica vazia pela janela do carro ou do apartamento; dando mal exemplo os seus filhos; continuará desperdiçando água, luz, alimentos; continuará buscando aplicar a famigerada “lei de Gerson” (desculpe Gerson) e querendo levar vantagem em tudo.

Ao cuidar desse mundo de dentro alteramos o mundo de fora. Harmonizando a metrópole interna onde tensões, conflitos, frustrações, idiossincrasias, pecados capitais, fobias, alegrias etc, constroem os ambientes que nossos muitos Eu habita (nosso ego se mascara, conforme a conveniência, viu?). Agindo assim, tornamos nossa natureza mais sadia, pela comunhão dos contrários. E essa condição se espraia pela nossa voz e pelas nossas atitudes nos quefazeres cotidianos. Nesse estado de lua-de-mel consigo mesmo, estamos em paz com aquilo que nos rodeia, seja visível ou invisível: gente, bicho, planta, pedra ou fluidos. Essa é a ecologia profunda.

Assim, proponho que seja criado o Dia Mundial do Meu Ambiente Interior. Esse dia servirá para que se desenvolvam reflexões que contribuam para o desenvolvimento do lado imaterial da natureza humana e sua essência, que a tudo permeia. Nesse dia “guardaremos o sábado” (não necessariamente sábado, é óbvio). Nesse dia, um único dia entre 365 outros, não se fará nada, absolutamente nada, que não seja o estritamente necessário. Não se cortará árvore alguma, nem se arrancará qualquer mato ou grama; não se abaterá animais de qualquer espécie; não se carregará fardos leves ou pesados; não se dirigirá carros ou outro veículo; não se acenderá fogueiras; não se produzirá ruídos que perturbem o vizinho; não se gritará nem se provocará dor e sofrimento ao outro. Nesse dia nada será atirado contra o chão ou contra algo.

Nesse dia calaremos e poderemos até ouvir o som da natureza respirando. Esse som nos envolve como uma bruma densa mas invisível, que não percebemos porque estamos imersos nela e nossos sentidos estão embotados. Ao pararmos em repouso, pairamos acima disso e podemos observar o que de outra forma nos é imperceptível. A repetição dessa prática poderá elevar a geração humana ao patamar evolutivo onde há Justiça e Prosperidade para todos.

4 comentários:

Cybele Meyer disse...

Olá Franz,

Menino!!! Que texto bárbaro!
Adorei!
Sabia que sou sua fã incondicional.
Adoro tudo que você escreve, mas este aqui... está demais.
Vou referenciá-lo no meu artigo que escrevo no Itu.com. Colocarei no ar na segunda-feira, ok!

Parabéns e Oxalá os anjos digam amém e isso realmente venha a acontecer, mesmo que seja por um único dia no ano, como você mesmo recomenda.
Sucesso!
Com carinho

Mara Soledade disse...

Boa noite Franz,
obrigada pelo carinho.Como a CYbele Meyer disse... O texto é bárbaro!
Parabéns e que está força se faça sempre presente em sua vida, porque você faz diferença!
Abraços
Mara Soledade

Mara Soledade disse...

Boa noite Franz,
obrigada pelo carinho.Como a CYbele Meyer disse... O texto é bárbaro!
Parabéns e que está força se faça sempre presente em sua vida, porque você faz diferença!
Abraços
marasoledade13biologia@yahoo.com.br

Gládis Leal dos Santos disse...

Olá Franz,

Amei o texto e a idéia do Dia do meio Ambiente Interior. Precisamos parar, desacelerar e cuidar mais do que vai dentro de nós para estrmos em sintonia com o Universo.

Bjus

Gládis

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