quinta-feira, 3 de abril de 2008

Anistia para Wilson Simonal!!!

Comecei esta semana lendo uma página da Folha de S. Paulo de 24/03/2008, com uma reportagem sobre o filme "Ninguém sabe o duro que dei", documentário sobre o grande e injustiçado artista que foi Wilson Simonal(26/02/1939 – 25/07/2000), que o humorista Cláudio Manoel, do Casseta&Planeta, vai apresentar durante o festival "É Tudo Verdade".
Sou fã de carteirinha de Wilson Simonal desde a década de 1960. Seu estilo de cantar, bem suingado, contagiante, fez surgir um ritmo chamado de “Pilantragem”, criado por ele e Carlos Imperial, e que gosto muito até hoje. Em 1969 eu era estudante na Escola Técnica Celso Suckov da Fonseca, em São Cristovão, e de vez em quando freqüentava o Maracanãzinho, ali quase do lado (e quase quase fui assistir a antológica apresentação de Simonal no 4º Festival Internacional da Canção, de que fala a reportagem). Mas assisti pela TV. Também assisti ao "Show em Simonal", programa que ele apresentava pela Record, bem como às suas apresentações em programas de televisão, como os de Flávio Cavalcanti.
Certa vez, logo depois do serviço militar, fui trabalhar como vendedor de livros para uma distribuidora na Rua México, 111, no Centro. Era o ano de 1972, e nossa equipe foi para o Bairro do Jardim Botânico, bem em frente a Vênus Platinada. Eis que vejo Simonal saindo do prédio da Globo. Não titubeei: corri para pedir um autógrafo, e fiquei admirando a originalidade da sua marca: o "S" de Simonal era desenhado como uma clave de Sol. Naquele ano que o barraco desabou sobre ele!..
Acusado, injustamente, de ser um informante do DOPS entre os artistas, foi posto em completo ostracismo. O meio artístico lhe virou as costas, nenhum músico quis mais tocar com ele, quando tocavam não queriam seus nomes no disco. “Negro e de origem humilde, era um gigante como cantor, e permaneceu injustiçado durante todo o resto de sua vida” (leio o texto original aqui)
Depois, com a dita “abertura política”, anistiaram presos e exilados do regime militar, bem como seus torturadores, porém Simonal nunca foi beneficiado por essa ou qualquer outra anistia. Bem mais tarde, alguns artistas tentaram resgatá-lo deste degredo. Chico Anísio foi um deles, e escreveu um texto honrando-lhe a memória (leia aqui).
Em dezembro de 2007, lhe presto uma singela homenagem em meu podcast, postando a canção "Nem vem que não tem”, que lançou oficialmente a Pilantragem. Lá, digo que "Simonal é o exemplo mais marcante e vergonhoso de como no meio artístico existe muita inveja, ódio e hipocrisia e toda homenagem que lhe prestarem ainda será pouca".
Simonal deixou um espaço na boa música brasileira que nunca será preenchido, infelizmente! Como fã de seu trabalho, digo que o que ele representou para a nossa MPB ainda não foi escrito, mas esse documentário pode significar o início de um processo de reconhecimento justo e merecido para esse grande artista, músico, compositor e show-man.
Ei, seu Casseta, quero ver o filme!

3 comentários:

Martoni disse...

Franz, muito justo este post, sempre gostei do jeito de cantar do Wilson Simonal e até hoje não passo um mes sem eu escutar a música Sá Marina.
Viva Wilson Simonal.
Um abraço, Martoni

Sylvio disse...

Gostei muito do texto que desvela os bastidores do mundo artístico, mostra a apodridão e desunião "deles", coisas que não aparecem na revista "CARAS", que segundo Ziraldo deviam é lançar na revista "Bundas". Parabéns você e Chico Anísio pela coragem.
De um paraense que se perdeu em Floripa há 25 anos.Mas, que continua amando sua Terra natal.
OBS: Texto da Anistia para Wilson Simonal- Ao clicar no leia o texto original aqui.Não está ativo, dá a mensagem: O blog que você estava procurando não foi encontrado
Sylvio Fernando Mattos Xavier da Silva
Diretor do Departamento de Mídia e Conhecimento ex - Coordenador do NTE Municipal da Prefeitura Municpal de Florianópolis.

Meire disse...

Não há qualquer verdade em tudo o que foi dito contra Wilson Simonal ao longo de quase quatro décadas, o suposto envolvimento com a repressão já está mais do que esclarecido. Simonal foi desmoralizado porque a mídia promoveu uma campanha sórdida contra ele e a classe artística tratou de engolir rapidinho toda a história...

O depoimento dos policiais não passou de mentiras para livrar a cara deles mesmos, que, envolvidos na questão do contador, precisavam justificar porque utilizaram as dependências do DOPS. O inspetor Mário Borges, em sua defesa, mentiu em juízo ao dizer que "interrogou" Rafael Viviane porque Simonal era um informante, e que, por isso, acreditou que o preso era um terrorista perigoso. Entretanto, o superior dele, o inspetor Vasconcelos, DESMENTIU o testemunho, mas, este depoimento, apesar de constar no processo (3450), ESTRANHAMENTE não ganhou as páginas dos jornais. Simonal cansou de repetir isso, mas, alguém lhe deu ouvidos?

O próprio Boni admitiu, com todas as letras, que se Wilson Simonal fosse realmente um colaborador da ditadura, ele teria sido, naquela época, a ÚNICA atração que teria total aval para ir ao ar na Rede Globo. Elementar...

Simonal incomodava muita gente porque se negava a dizer amém à sociedade racista da época. O preconceito racial era explícito, normal e corriqueiro, o estranho era alguém agir diferente. O Brasil sempre foi um país hipócrita, não nos iludamos, nada mudou, a diferença daqueles tempos para os dias atuais é que agora, além de ser crime, o racismo também é "politicamente incorreto", o que não o elimina, apenas camufla. Como disse Florestan Fernandes, "o brasileiro tem preconceito de não ter preconceito".

Dá para imaginar o estardalhaço que fazia um negão boa pinta desfilando de nariz empinado, todo cheio de si, a bordo de carrões e derretendo o coração das "lourinhas de família" – era um sacrilégio, a sociedade não engolia. Muitos dizem que Simonal cavou a própria cova porque era arrogante e metido. E daí, qual é o problema, é crime? A meu ver ele não destoava em nada de tantos outros artistas a não ser por uma enorme diferença: cometeu o pecado de nascer negro. Se fosse branco, certamente não faria diferença. Estava mais do que certo, tinha de se armar contra os que não admitiam que um negro nascido numa favela chegasse lá. E, além do mais, ele podia ser empinado, metido, e o que mais quisesse, afinal, não é qualquer um que consegue ser O MAIOR CANTOR de um país tão grande. Ele incomodou sim, arrebatou multidões e alardeou seu talento aos quatro cantos… imperdoável.

Não estou dizendo que Simonal era santo. Ele cometeu um gravíssimo erro ao envolver-se na questão com o contador, mas, foi processado, condenado e cumpriu a pena – pagou a dívida com a sociedade. Porém, as coisas não foram tão simples: ele deu a munição necessária para os que queriam vê-lo pelas costas: a mídia e a classe artística. Era tudo o que queriam, um motivo, um deslize, uma pisada em falso, pois não suportavam ver um negro num posto tão alto. Tornou-se um perigo tanto para a esquerda quanto para a direita porque dominava as massas - contra fatos não há argumentos.

Não é difícil compreender toda esta história, basta o brasileiro ter real interesse em pesquisar e saber o que houve. Tudo poderia ter sido diferente, não fosse a mídia canalha que enaltece e destrói a bel-prazer, e, pior, emudece quando lhe convém. Quantos, quantos casos conhecemos? Já passou da hora de reconhecermos que Wilson Simonal é um patrimônio cultural nosso, devemos isso a nós mesmos.

Franz, parabéns pelo belíssimo texto e pela iniciativa.
Abraços,
Meire Bottura

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