domingo, 17 de fevereiro de 2008

São Jorge e o Astronauta

Certa vez, durante um Curso de Formação de Professores em Belo Monte (cidadezinha cortada pela Tranzamazônica e pelo Rio Xingu, conheci um sujeito que não acreditava que o homem havia pisado na Lua, mas acreditava que lá morava São Jorge e o dragão. Baseado nisso escrevi o conto abaixo, mais tarde publicado na coletânea 13 Contistas e 15 Contos, do VI Concurso de Contos da Região Norte (UFPA, 1999) e na Revista Eletrônica A Arte da Palavra, edição 14 - 15/12/2001 (http://www.aartedapalavra.com.br/index.htm )
SÃO JORGE E O ASTRONAUTA No início dos anos 70, Santana do Anajarí, na região do Salgado, era uma pequena e pacata vila de pescadores, quase isolada por terra. Não conhecia a luz elétrica nem os vícios que ela traz. Jornal só vez em quando, e quando aparecia, era sempre atrasado de dias. O rádio era o único meio de comunicação a levar informação e lazer, mas as pilhas eram caras e duravam pouco, por isso quem tinha o seu tratava de racionar. Ouvia-se o rádio em horas determinadas: aquele programa da PRC... - “ a voz da .Amazônia....operando em ondas curtas para...”, - que transmitia os recados dos parentes e amigos da capital para o povo do interior: “Alô, alô Zeferino Torreão, alô, alô Zeferino Torreão, teu irmão está mandando avisar que tua filha chegará no próximo navio. Diz que ela não se deu bem aqui na capital...” - era imperdível; prestava um serviço de “urtilidade púbrica”, como diziam os caboclos. Ouvir rádio o dia inteiro só seu Viriato Farinha, português de Funchal, na Ilha da Madeira, dono da única venda de secos e molhados, do primeiro rádio e das duas únicas geladeiras à querosene do lugar. Foi graças a ele que aquele povo conheceu o gelo, a “maior invenção do século”, segundo Genésio, que quando viu pela primeira vez o filho chupando uma pedra de gelo, gritou: -‘Tás comendo “vrido”, peste? E o guri: - Não pai, tô chupando gelo. Televisão, tirante seu Farinha, e talvez metade de meia dúzia de afortunados, ninguém mais sabia que bicho era. E por mais que ele tentasse explicar, não havia quem conseguisse entender: - Cumantão seu Farinha, quer dizer que essa tar de televisão é um caixote em que a gente pode vê as pessoas lá dentro? E o português insistia por detrás do balcão: - Então não estás a perceber? É como um rádio, só que é maior e a gente pode ver quem está falando, pois não! O grupo de ouvintes se entreolhava. Uns arqueavam as sobrancelhas enquanto baixavam os cantos da boca, numa expressão de clara admiração e assombro; outros simplesmente sacudiam a cabeça em sinal afirmativo, como se estivessem compreendendo tudo e reforçassem o que dizia o lusitano, porém, em verdade nada entendiam, mas respeitavam a cultura e conhecimentos do dono do empório; outros ainda, discretamente, trocavam uma piscadela matreira. - Hen-hen... E quem a gente vê pode vê a gente? - C’os diabos, ó homem, claro que não! Essas pessoas que a gente vê no aparelho de televisão estão muito longe, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, e não dentro do aparelho, ora pois pois!... Catando os restos de paciência que ainda possuía, o comerciante tenta explicar que a ciência humana não possui limites. Que, primeiro, o homem inventou a luneta e o telescópio, que era para ver o que estava distante, até mesmo a Lua e outros planetas; depois inventou o microscópio, que serve para ver as células e os microorganismos, que são coisas tão pequenas que chegam a ser invisíveis aos nossos olhos; e finalmente inventou a televisão que é um aparelho revolucionário, pois permite ver o que está acontecendo noutros lugares, no instante em que o fato está se sucedendo. Explicou ainda que as imagens e sons viajam pelo ar, como as ondas de rádio, desde a estação transmissora até o aparelho receptor. - Desculpe seu Manuel, mas se esse tar aparelho é tão bom, por que o senhor não tem um aqui? - Isso mesmo, por que o não traz um pra gente ver? - Ai, minha Santa Edviges! Não existe televisão que funcione à pilha ou à querosene, como as minhas geladeiras ou o rádio. Ó raios! - e para seus botões: “Depois falam de nos portugueses...”- Este bendito aparelho só funciona com energia elétrica, e aqui nos não temos essa benção. Entendestes, ó pá? O velho Genésio, que se mantivera calado segurando o copo de cachaça, entornou o líquido branco de um só trago, cuspiu para o lado e disse: - Olhe, se calhar inté que isso pode existir. Se existe “Lubisomi; se existe Matinta Pereira, que eu já vi; se existe Cobra Grande, se existe, Curupira e Saci, se existe “buto” que vira gente..., por que não havera de existir esse aparelho maluco? Todos concordaram com aquele raciocínio “lógico” do velho pescador. Isso era coisa que eles entendiam, estava na linguagem deles, e não era complicado como a fala do português. E tudo teria terminado ali se um dos ouvintes, justamente aquele que dera a piscadela, não tivesse afirmado em tom de provocação e chacota: - Tá certo, seu Farinha, tá certo! O homem é um bicho capaz de inventar e fazer muitas coisas fantásticas. Agora só falta o Sr. dizer que o homem já foi à Lua... He! He! He!... - Pois fique o Sr. sabendo que exatamente no dia 20 de julho do ano passado, um homem chamado Neil Armstrong, pisou na Lua... E isso foi transmitido para o mundo todo, pela televisão... A notícia causou um impacto que o esforçado taberneiro não esperava. Dois ou três segundos de silêncio, para processarem a informação, e irromperam numa gargalhada estrondosa. O albino Calunga, num acesso de riso desenfreado, curvou-se tanto para trás que chegou a cair do banco em que estava sentado, os olhos lacrimejavam. Genésio engasgou-se quando ia tomar mais uma talagada, borrifou o mais próximo com a cachaça e passou mal de tanto tossir; Agripino, mestre calafate, ria no seu modo peculiar: a mão tapando a boca e o riso saindo em rajadas sibilantes. Josias Carvoeiro, o mudo, ria seu riso sem som, de boca aberta e olhos fechados, ora jogando o corpo para frente, ora para trás; de vez em quando extraia uns ruídos estranhos da garganta. Outros gargalhavam escandalosamente, dando tapas no balcão. Sério, só o velho patrício de Bocage. E mesmo depois que trancou as portas de seu estabelecimento, o comerciante ainda ouvia os risos e os comentários descabidos, os disparates, a parvalhice ingênua daquela gente simples, afastando-se na noite silenciosa: - Diga lá, seu mano... esse tar de “Neimistron” pisou na Lua, será? - Qual! esse português quer fazer pouco da gente, seu mano... Imagine se São Jorge ia deixar o homem pisar na Lua. Há! Há! Há!... ---------------------------------------

Há, em Belém, no bairro Cidade Velha, um excelente e exótico bar e restaurante, chamado "Taberna São Jorge", famoso pelo seu "Arroz de pato" que recomendo a todos (mais informações em http://veja.abril.com.br/melhor_da_cidade/belem/bares.shtml).

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