terça-feira, 17 de agosto de 2010

Ser Professor é coisa pra doido?- II

Quando comecei a lecionar na Secretaria de Estado de Educação-SEDUC/PA, há cerca de 30 anos, era recém-casado e com as obrigações próprias dessa condição, então trabalhava em 3 turnos e em três escolas diferentes (entre públicas e privadas), como tantos outros colegas. 

Por sorte que aqui em Belém os bairros são pequenos e, mesmo de ônibus, tudo é relativamente perto. Eu saía de casa 6 e pouco da madruga e retornava perto da hora do lobisomem. E como todo bom operário, ás vezes levava a marmita e comia aquela bóia fria...

Pior era na época de avaliação? Com tantas turmas e centenas de alunos, quando chegava a época das avaliações era tanta prova, tanto trabalho de aluno, tanto papel pra carregar, que de bóia-fria virava estivador.  E lá se ia um final de semana ou mais para corrigir tanta prova e lançar notas na caderneta.  Ás vezes, para adiantar, eu  lia os trabalhos ou provas dentro do ônibus, enquanto ia de uma escola pra outra, mas quase sempre minha mulher ajudava...

Trabalhando muito e me alimentando mal ganhei uma pequena úlcera, e uma vez na escola quase quebrei o pé. Aí decidi que não valia a pena trabalhar tanto e ganhar um POUCO mais, pra depois gastar com remédios. Então, reduzi um pouco o rítmo e diminuí a carga horária para 240h mensais,  mais tarde para 200h, e assim passei mais de uma década.

Em 1998 entrei para o NTE, e passei a trabalhar com a formação de professores no uso pedagógico de computadores em rede e das TIC na Educação. Voltei a me empolgar com a educação. Podia jurar que todos professores acorreriam ao NTE ansiosos para aprender como utilizar os novos recursos tecnológicos para melhorar suas aulas e promover um aprendizado mais eficiente de suas disciplinas. Acreditava que todos os professores brigariam para oferecer aos seus alunos uma aula mais interessante e dinâmica, mais produtiva, com os computadores das Salas de Informática Educativa (SIE) montada em suas escolas pelo Proinfo... mas o que ainda se vê é uma resistência absurda!

Agora trabalho 12 horas por dia (ás vezes mais) tentando convencer outros professores (e mesmo diretores) de que é seu dever trabalhar em parceria com o professor de SIE e de elaborar atividades de sua disciplina para serem executadas pelos alunos no computador. Tento mostrar  que o computador, e todo potencial multimidiático que ele proporciona,  é o instrumento que veio revolucionar a educação; que é a ferramenta capaz de promover a tão proclamada transdiciplinaridade; que pode promover  a autonomia e ontonomia do indivíduo pelo empoderamento da informação e da construção de conhecimento que isso gera; que a informática na educação é isso..., que as TIC aquilo...; que o professor que não oportuniza o acesso de seus alunos a essas tecnologias ou que não busca melhorar suas aulas com tais recursos está sacaneando seus alunos; que...

Voltei a passar do horário, a trazer serviço pra casa, a passar fim de semana pesquisando, preparando projetos, elaborando apostilas e, às vezes, tentando dar meu recado a outros professores em algumas postagens muito pouco lidas nesse blog...

Agora estou prestes a me aposentar. Não me sinto cansado de fazer o que faço, e o que é pior... eu gosto do que faço. Será que sou doido?

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4 comentários:

ericsiqueira disse...

Olá professor Franz,
Lendo seu relato, parece que estava lendo a minha vida. Há algo divino nos professores, algo que nem ele mesmo sabe o que é, mas que se sente realizado quando o faz. Eu era funcionário público do município e realizava atividades repetitivas durante anos que não havia espaço para pensar. Me sentia um computador que era apenas ligado apenas para ver a hora. Agora sou professor como você, trabalho muito, ganho pouco, mas sou livre para pensar e realizar algo planejado por mim, essa liberdade não tem preço, não importa quantos não pensem assim, sou feliz sendo professor.Porque penso, crio as condições,e realizo da melhor forma possível, isso é o divino de que falo.
Prof. Eric

Franz disse...

Oi, Eric. Você disse muito bem o que sentimos sendo professor. Obrigado pela visita e volte sempre.
ranz

Niuza Eugênia do Amaral disse...

Querido professor, ou caro professor, (pelo que há de sério neste comentário).

Depois de ler sua postagem e de ter a mesma sensação que o outro colega, fiquei com um pensamento meio surreal.Bom, você aí tão distante, passando pelas mesmas coisas que eu aqui:Tentando convencer os profissionais da educação da importãncia das ferramentas tecnológicas e etc... Então estava eu na cozinha , depois de ler sua postagem, buscando um copo d'água e veio o pensamento; O Franz sofreu tudo isso porque não encontrou os "pares', como dizemos hoje, e eu pela mesma forma... O pensamento surreal é o de que cada um de "nós" foi "jogado" em uma região deste país com esta função mesmo, a de perceber o quanto são ricas as tecnologias para a prática pedagógica, e mostrar isso para os professores... ficamos meio que abandonados, nos sentindo por diversas vezes um peixe fora d'água, mas há algo no ar: estamos de alguma forma nos encontrando!! Percebeu? Já leu algo sobre INDIGO E CRISTAL??? Leia então se não leu e bem vindo, creio que somos índigo...
Ainda mais depois de ver que simples estrelas tatuadas se transformam em poesia...

Abraços fraternos!
Niuza Eugênia
Ah, é um prazer conhecê-lo mais...

Franz disse...

Niuza, não conheço o lance de "Indigo e Cristal", mas irei buscar informações. Quanto a sua postagem, agradeço imensamente. Só ela já valeu a pena este blog.
Obrigado e volte sempre, Tentarei manter a qualidade das postagens para merecer suas palavras e visitas frequentes.

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