Diante da catástrofe que se abateu sobre o Haiti, uma colega me disse com tristeza: "Deus abandonou aquele povo".
É curiosa essa mania de algumas pessoas de se acharem capazes de conhecer a vontade de Deus, de saber o que Ele quer, de fazer afirmativas sobre Suas preferências ou inclinações...
É como se o átomo de água soubesse o que sonha o oceano, ou como se um grão de areia encerrasse todas as trilhas da Terra.
É possível ao Homem saber o que pensa o Criador? Há quem creia nisso.
Hoje, enquanto ia de um trabalho para o outro, li na traseira de um carro: "Deus é fiel!" Ou seja, existem pessoas que acreditam que há um deus que, ao mesmo tempo, abandona a uns e é fiel a outros. Será que crêem ser isso também possível?
Se acreditarmos que Deus é
capaz de fazer escolhas, teremos que aceitá-Lo como um deus a quem faltam
algumas prerrogativas da divindade. Ter preferências ou fidelidade é prerrogativa das criaturas humanas. Seria, então, possível crer n'Ele sabendo-o tão humano?
Os deuses do panteão mítico de alguns povos antigos tinha essa característica: guardavam similitudes de temperamento com os mortais: tinham humores variáveis. Castigavam ou premiavam conforme lhes desse na telha ou lhes conviesse os favores e oferendas. Mas esses povos, há séculos, desapareceram ou abandonaram tais crenças. Hoje a humanidade crê na existência de um deus único, Criador e Causa Primária de Todas as Coisas. Será mesmo?
Contam que Krishnamurti, ao encerrar uma palestra, foi questionado porque não falara de Deus. E ele perguntou: De que deus querias que eu falasse?
E quando lhe perguntaram se havia encontrado Deus, ele disse: Como sabes que encontrei Deus? Deus é uma coisa que estava perdida e foi achada? Deus pode ser encontrado, pode ser conhecido?
Hoje, parece que todo mundo sabe onde Deus está, ou onde Ele não está. Contudo, não O enxergam no terremoto que destrói uma cidade e soterra milhares de pessoas, ou nas águas que transbordam rios e carregam tudo à sua frente: morros, casas, pontes, carros e gente.
Muitos rezam dizendo: "Que seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu", mas como não acreditam que tudo que acontece, acontece pela vontade d'Ele? Eles rezam com a boca, não com mente livre de preconceitos.
Há os que acreditam que o acaso não existe, mas se sobrevém a desgraça, repetem as palavras do Cristo, na cruz: "Abaa, abba, lame sabactâni? - Pai, pai, porque me abandonaste?". Porém, se esquecem que Cristo também disse: "Pai, perdoai, porque eles não sabem o que fazem".
O povo do Haiti, os atingidos pela chuva nalgumas cidades brasileiras, os famintos da Etiópia ou os infelizes de qualquer canto da Terra não estão esquecidos ou abandonados por Deus, nem recebendo um castigo Seu.
Seus sofrimentos nos comove, nos comprimem o coração de dó e piedade. Desencadeiam em nós um dos sentimentos mais profundos de que o Homem foi dotado: a compaixão (com paixão=paixão com o outro). E não há nada de divino nisso.
Mas saiba que a lição que fica disso tudo é de todas a mais difícil de entender e de cumprir. É a lição do desapego: não se apegue a nada deste mundo, pois tudo é ilusão.
