Meu falecido pai (que descanse em Paz Profunda),entre outras ocupações, também dedicava-se ao misticismo. Sempre que eu lhe pedia para me iniciar em certas práticas e segredos, invariavelmente respondia com um aforisma esotérico muito conhecido e verdadeiro: "Quando o chela está pronto o Guru aparece", ou "quando o aluno está pronto o professor aparece". E me explicava que esse mestre pode vir na figura de uma pessoa, um animal, um livro, ou qualquer coisa material ou abstrata que suscite reflexões e desperte o indivíduo para um aprendizado. Vivi esperando esse ser iluminado, mágico até, dotado de sabedoria extrema, de paciência, de compreensão da vida, sabedor dos sinais e mistérios da natureza... e que me ensinasse tudo. É óbvio! Esperava um mestre que me dissesse: 'Gafanhoto', o que buscas nessa estrada empoeirada que não termina quando chega a noite?... O caminho é por ali! Ele me afastaria da escuridão e me conduziria pela trilha da luz.
Muito, mas muito mais tarde descobri que a figura que mais se aproxima desse ideal é a do professor. Etmologicamente, guru quer dizer professor, em sânscrito (Índia, Indonésia). Mas também pode ser chamado de lama,(Tibet - um conceito budista para monge, mas ainda assim com o sentido prático de professor), mulá (Turquia - veja as Histórias de Nasrudin) ou maestro/mestre (Espanha, México, Argentina), rabi/rabino (Oriente Médio - tem uma conotação religiosa, mas dentro do judaísmo significa professor).
O professor e o Guru
Guru, lama, mulá, rabi, mestre, são conceitos milenares e soam com reverência. Estão carregados de um respeito que advém não somente da bagagem de conhecimentos que esse indivíduo detém e do conteúdo de suas vivências, mas de seu extrato espiritual.
O que os diferencia do atual conceito de professor? Os objetivos, a prática e a maneira de ensinar, a contemporaneidade? Não. O que faz a diferença é a família onde o aluno moderno recebe suas primeiras lições de educação básica, de moral, de ética, de bons costumes. Os pais já não controlam seus filhos, não lhes transmite responsabilidade, não sabe impor limites... E o aluno que não apresenta respeito, consideração e reverência pelos pais não irá demonstrá-los por seus professores.
Todas as dificuldades das etapas formativas do indivíduo, que deveriam ser tratadas no seio doméstico, familiar (veja Quem Ama, Educa! de Icami Tiba), são agora transferidas para os ombros do professor. E isso se agrava na escola pública. Temos a educação como um produto, a escola como prestadora de um serviço e o professor um escravo das conjunturas educativas.
O paidagogo
Na Grécia antiga chamavam de paidagogos (ou pedagogos) os escravos encarregados de ensinar aos filhos de seus amos. Era um trabalho às vezes muito difícil e desenvolvido por escravos que já não tinham muita produtividade. Cabia-lhes, entre outras coisas, ensinar ao pupilo normas de conduta e prepará-lo para a vida na sociedade. Há pouca diferença entre eles e os professores atuais.
Se é verdade que quando o aluno está pronto o professor aparece, é verdade, também, que quando o professor está pronto o aluno aparece? Mas que professor é capaz de saber-se "pronto" ou reconhecer quando o aluno está "pronto"? Que universidade ou curso de formação inicial desenvolve essas habilidades e competencias no futuro professor?
Trabalhando com formação de professores há bastante tempo, vejo que nem o professor nem o aluno chegam na escola prontos para aprender. Não falo daquele velho conceito de prontidão tão conhecido dos educadores, mas de uma prontidão que nada tem a ver com currículo e conteúdos disciplinares tradicionais, oficiais.
Maktub!
Embora nunca pensasse em ser professor acredito que, talvez, tenha sido a partir daqueles momentos com meu pai que a semente do que viria a ser meu Eu profissional foi plantada. Mas se como aluno já me sinto pronto, como professor sei que não estou, e talvez jamais esteja. Contudo sei também que ninguém foge de suas tendências. Essa certeza me traz a esperança de um dia ver e reconhecer meu Aluno.
* Credito: imagem obtida em http://letrasimples.blogs.sapo.pt/arquivo/luz.jpg

