Mas o fato é que já plantei árvores. Aliás, desde 1969 até hoje, quando viajo de carro ou ônibus, costumo atirar sementes pela janela com a esperança de que brotem às margens das estradas. Mas isso não é plantar. Plantar uma árvore pode ser um ato solitário, mas nunca egoísta. Vai do ato da escolha da muda e do local onde será plantada até cuidados maiores, pois se planto uma mudinha devo me envolver com ela, cuidar de sua evolução e desenvolvimento. Devo preparar o solo, regá-la, defendê-la das pragas, aconchegar-lhe terra ao caule, dar-lhe aprumo no crescimento e, muito e muito depois, colher os frutos. Assim, quando o ditado diz para plantar uma árvore, penso que quer dizer ao homem: aprenda a ser cuidadoso com suas obras, pois outros poderão se beneficiar dela; seja paciente com seus projetos para que durem o bastante para lhe satisfazer, e não perca as esperanças, pois uma árvore é uma floresta em potencial.
E escrever um livro? Esse parece ser um sonho de todo mundo. Bem, isso só não basta, é preciso publicá-lo. Já escrevi dois e tenho mais três em andamento. Eis outra ação solitária mas não egoísta. Escrever um livro é uma forma de deixar nosso recado para o mundo, por isso exige coragem para se expor, se deixar transpassar pelo olhar crítico dos outros. Escrever um livro exige pesquisa, dedicação e cautela de artesão para cinzelar a matéria bruta das palavras soltas e fixá-las no papel, cada uma no lugar certo. E isso não é tarefa fácil! É como desenhar a bico de pena: você começa colocando um pontinho aqui, outro ali, outro acolá e só quando juntar todos os pontinhos é que poderá ver a obra pronta.
Aqui o ditado quer dizer que um sonho se realiza pela persistência, que um castelo se constrói pedra sobre pedra. Você não deve desistir de seus sonhos, porém se não o realizou não deve se chatear, pois só o fato de ter lutado pela conquista já terá proporcionado um grande e belo aprendizado, e o tornará uma pessoa melhor.
E chegamos a terceira ponta desse triângulo que, segundo Martí Pérez, conclui a obra de um homem sobre a Terra: filho. Tenho três (o triângulo), mais dois enteados, logo tenho 5 (o pentagrama). Mas não basta ter um filho, é preciso criá-lo e educá-lo no caminho da verdade e da justiça. Se você plantou uma árvore e escreveu um livro antes, está preparado para essa última e talvez a mais árdua das tarefa: ser pai. E se começou sendo pai, plante uma árvore para seu filho e escreva num livro sua mensagem para ele, diga-lhe do que aprendeu com ele. Um filho é teu divisor de águas, muda tudo na sua vida, seu moço. É ele quem traz a revelação de tua existência, te mostra o sentido das coisas sem sentido que já fizestes na vida. Gravitarás em torno dele e descobrirás que, embora sejas o pai, é ele quem te governa, te guia e te ensina.
Para meu filho eu costumava dizer, quando lhe ensinava algo que aprendi com meu pai: Arcthur, sabe quem me ensinou isso? Foi meu pai. Até que um dia, com cerca de 5 anos e depois de um desses momentos, ele me disse muito sério: Pai, já notou que você nunca me ensinou nada... (imagina minha cara de espanto!)... É sempre coisa do meu avô. Foi ai que descobri que, mesmo sendo professor, nunca ensinei nada pra ninguém: não sou mais que um meio, um cano ente a caixa d'água e a torneira (mas me consola a idéia).
É como diz João Nogueira em duas lindas canções, um filho é seu espelho, e o meu medo maior é o espelho se quebrar. Assim, plantei árvores, escrevi livros, tive filhos e minha missão está quase completa. Agora recorro à poesia de Vinicius de Morais e à melodia de Toquinho, em "O Filho Que Eu Quero Ter", que sempre me emociona, para finalizar este post e lhe dizer: Eis porque me sinto realizado.
Sentir-lhe a barba me roçar no derradeiro beijo seu
E ao sentir também sua mão vedar meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar num acalanto de adeus
Dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado, com o filho que ele quer ter.

