sábado, 31 de julho de 2010

Cenas de Ruas de Belém 4

Nas Cenas de Ruas de Belém deste mês trago apenas dois motivos. O primeiro é um retrato da nossa euforia passageira no rumo ao HEXA, na Copa da África. 

Por todo canto, muros, fachadas e ruas traziam as cores verde e amarelo e marcavam nossa brasilidade, nossas expectativas e fé na conquista do hexacampeonato, ainda que a seleção do Dunga"búô" não convencesse.   

Mas em 2014 teremos a Copa aqui no Brasil. Até lá, teremos eleições. Em outubro próximo as majoritárias, e em 2012 para prefeitos e vereadores. Seria muito bom se a população se mobilizasse e se unisse como fez agora  nessa Copa, para escolher seus candidatos com base na honestidade, na sua Ficha Limpa, nas suas ações pregressas, e não agisse como o Dunga"búô". 

O Prateado de Belém
As imagens abaixo mostram o primeiro (talvez único) artista de rua a se apresentar como estátua viva em Belém.  Ele é uma figura bastante conhecida e encontradiça em locais por onde passam milhares de pessoas por dia, como na frente de Shoppings e da Estação das Docas.

Ontem conversei com ele na frente do Shopping Pátio Belém.  Diante de sua caixinha de madeira ele fica parado por horas, imóvel. As pessoas passam e atiram moedas na caixa, quase sempre para vê-lo mover-se em agradecimento.

Seu nome é Edson, tem 51 anos e há 7 está nessa profissão. Ele me contou que no começo foi muito difícil se concentrar e se isolar dos barulhos ao redor e permanecer longo tempo numa única posição. O mais difícil foi ficar em pé no asfalto quente. Quando perguntei porque  não usava algo sob os pés, disse que já estava acostumado.

 
Sem querer esbarrei o braço nele e fiquei com quase um palmo de tinta prateada no antebraço direito. Soube que era uma mistura de purpurina prateada com óleo de amêndoas.

Qualquer dia farei uma nova postagem sobre esse grande artista das ruas de Belém.


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Quosque tandem, Congresso, abutere patientia nostra?

Pense nisso quando for votar

A última folha da revista ISTOÉ traz, a cada número, um texto de um consagrado artista ou homem de negócios, como Marcos Sá Corrêa, Miguel Falabela e Zeca Baleiro. Este último número o texto é de Ricardo Amorim e tem o título de Hobin Hood às avessas. Eis um trecho: Imagine que Robin Hood tivesse um ataque de loucura e resolvesse fazer tudo ao contrário: roubar dos pobres para dar aos ricos. (...) Que tal se ele roubasse de 200 e desse tudo para um único indivíduo? 

Você pensa que isso é mais uma história fantasiosa, uma ficção? Pois saiba que esse Robin Hood às avessas existe e vive no Brasil sob o nome de Previdência Social do Setor Público. Amorim esclarece que, enquanto o teto das aposentadorias do INSS é 3,4 mil, as aposentadorias e pensões do Legislativo e do Judiciário superam os 13 mil mensais, em média. E como isso não bastasse, “há no Congresso (mais) uma proposta de emenda à Constituição, já APROVADA no Congresso, que elimina a contribuição de 11% sobre as aposentadorias e pensões de inativos do setor público. Se aprovada, os impostos de todos os brasileiros aumentarão para que um grupo de 0,5% de privilegiados ganhe ainda mais”. 

Para obter esses benefícios de lesa-magestade o Legislativo se alia ao Judiciário contra o Executivo e, como num jogo de frescobol entre os dois, a nossa Carta Magna vira a bola que leva raquetadas a torto e a direito. Assim, a Constituição cheia de remendos virou uma colcha de retalhos, e continua recebendo remendos. E de tão remendada encontra-se rota, senão mutilada. 

O caminho dos impostos no Brasil é uma via de mão única:jamais retorna ás origens, isto é, os impostos não voltam às mãos daqueles que  pagam, como seria de direito. No caso da Previdência Social o cenário é de longe o pior. Então, de que adianta a economia brasileira crescer e o país aumentar seu PIB se isso não retorna como benefícios para o povo? 

Tá certo que, neste governo, o salário mínimo (mais de U$ 200) é o maior de todos os tempos! Tá certo que o poder de compra do trabalhador  melhorou. Em compensação, a qualidade de vida do cidadão brasileiro piorou assustadoramente. Qualidade de vida não é aumentar o padrão de vida do trabalhador, ou seja, não é apenas poder comprar mais. Ter qualidade de vida é poder viver melhor, é ter melhor educação, melhores condições de moradia, de transporte, de lazer, de saúde. Qualidade de vida envolve fatores sociais, psíquicos e físico-emocionais que geram bem-estar. Quantos cidadãos brasileiros podem afirmar que vivem em paz, segurança e tranqüilidade? Nem mesmo os marajás do Legislativo e do Judiciário. 

Quanto mais esses senhores legislarem em causa própria para aumentar seus salários e se cercarem de benefícios, mais injustiça promovem e mais desrespeito demonstram para com o resto da população, consequentemente mais frustração estarão gerando nos corações do trabalhador brasileiro. Assim, misturando injustiça, frustração e desrespeito no cadinho social, eles estarão/estão contribuindo para manter e aumentar o câncer social que grassa nesse país: a violência e a criminalidade. 

E considerando a violência e criminalidade no Brasil como uma reação da sociedade, que inclusive já foge do controle nalguns lugares como  o Rio de Janeiro, por exemplo, uma questão me incomoda: Quousque tandem abutere, Congresso, patientia nostra? 

Para mais informações sobre salários dos 3 poderes clique AQUI e para informações sobre violência no Brasil clique AQUI

Crédito: Imagem obtida em http://www.sediscute.com/2010_06_01_archive.html

terça-feira, 27 de julho de 2010

História da Matemática e a Numerologia - Parte IV

Começo aqui a apresentar uma leitura da origem dos números, e da própria criação, à luz da Numerologia. Embora pareça fantasioso, devo dizer que a maioria dos  ensinamentos mais importantes foram/são transmitidos de maneira fantasiosa. Isso ajuda a fixar o conhecimento.

Be-Rasit/No início

No 1 temos o início dos números...
Modo Comentário ON: Sabemos que o Zero, como número e numeral para a ausência de quantidade, só apareceu muito depois, na Idade Média, por volta do Séc. VI ou VII.(veja artigo sobre  a evolução do conceito de Zero AQUI).
Modo Comentário OFF 
    A mônada ou Nous, é a Unidade, o princípio de todas as coisas. Porém, a Unidade por si só não pode gerar coisa alguma: é estéril! Entretanto, guarda em si o princípio do hermafroditismo. Assim, é necessário que se oponha a si mesma, bipartindo-se e se fecundando, sendo ao mesmo tempo imagem e reflexo. Isso aparece na Bíblia, no Gênesis (2-26), quando lemos: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança.”
    Quando a Unidade (1) se biparte  faz surgir a Díade, o Dois (2), e com ele toda a classe de oposto. O 2 é a Lei da Polaridade expressa no mundo dos números. Em Geometria temos a imagem do Ponto que se desloca formando a Reta.
    Considerando o algarismo 1 como o Ser e o algarismo 10 como o Universo, produzido e criado pelo “Princípio Único” (1) do “Relativo Nada” (0), temos os dois pólos entre os quais tudo se manifesta.
Modo Comentário ON:  Na Numerologia o 1 é associado a Divindade Suprema, ao Sol e a Luz; enquanto o 2 é correlatado com a Lua, com as Trevas, as Sombras. 
Enquanto o 1 é divino, posto que a Unidade é atributo do Incriado, o plano humano é representado pelos “muitos”, nesse caso os números compostos (as dezenas). Porém o Um torna-se Muitos e os Muitos unem-se para formar o Um.
Modo Comments OFF.

      A representação simbólica para o exposto acima pode ser obtida construindo-se um círculo com um ponto no centro. O ponto representa o Um e a circunferência o Nada relativo (o Nada absoluto não existe), o Ovo Cósmico (e numerológico). A união de ambos, conforme foi expressa, representa a Década e simboliza o Criador e a Criação, Deus e o Universo.
Modo Comentário ON: Como todos sabemos pela geometria euclidiana, o ponto é admensional; não tem espaço dentro de si; não significa nada e pode representar tudo: todas as coisas vistas à distância aparecem como um ponto, seja um homem ou um planeta.
Modo Comentário OFF:
 
     Ao se deslocar, o Ponto (1) dá origem a uma linha ou Reta (2). A reta, tendo fixado um ponto numa das extremidades, desloca-se originando uma figura de três lados, gerando a primeira figura geométrica fechada (3); e surge a Tríade. Nesse ponto a Consciência toma forma, contudo ainda não é a forma em si, mas o seu significado.
Modo Comentário ON: O Três é obtido pela união do Um (a energia criadora) com o Dois, seu reflexo e complementar. A Unidade é o ativo,  a Dualidade o passivo. A junção de duas forças opostas apresenta no seu cruzamento ou intersecção, uma terceira, a neutra. Eis a tradução do símbolo representado pela Cruz.
Modo Comentário OFF:

O Ponto e a Circunferência
Deus é uma esfera cujo centro acha-se em toda 
parte e a circunferência em lugar nenhum - B. Pascal

     Mas, ao nível de Universo manifestado, até esse momento ainda não temos o surgimento da matéria nem do Homem. Estamos apenas no estágio da preparação. O Espírito Criador está estático e só; a Consciência permanece adormecida no interior do Grande Ovo Cósmico. Ainda não há nada, apenas o Cosmo, a Ordem Suprema, a imobilidade absoluta.
    De repente, o Espírito se moveu. E esse movimento desequilibrou a ordem estabelecida. Com a desordem surgiu a agitação e instaurou-se o Caos. Inicialmente de forma tímida, até atingir um nível de agitação capaz de produzir um SOM (OM ou AUM). O som despertou a Consciência e esta percebeu que o movimento, a vibração e o som deram origem a uns agrupamentos singulares de partículas extraídas de sua própria substância constituinte, durante a fase anterior. 
    Então a Consciência se viu multiplicada nesses agrupamentos. Eles eram a existência potencial que daria origem à matéria condensada e que viria a constituir o mundo no qual surgiria o Homem primitivo (Adão). 
Outras leituras similares para o parágrafo acima:
 
1 - No início a Divindade repousava no Caos do Universo até o momento da Criação. O Ser dormia no interior do Ovo Cósmico. Então a Divindade manifestou um pensamento que vibrou, e vibrando converteu-se em ação. E pela Sua vontade (1) e imaginação (2), criou (3) o mundo objetivo (4) através da multiplicidade (10) de si mesma. E do relativo nada (0) surgiu o todo completo (10) e a graça perfeita (12).

NOTA: A vontade é o poder masculino e a imaginação o poder feminino.

2 – No princípio as Trevas cobriam a face da Natureza. E o éter pairava sobre a superfície do Caos. Quando a Grande Luz brilhou no firmamento, e o abismo fugiu diante da Luz. (Sepher Ietzirah).

3 – As trevas cobriam o Abismo, e o Espírito de Deus se moviam sobre as águas primordiais. E Deus disse: Fiat lux, e a luz se fez. (Gênesis)

4 – Tudo era Trevas antes de surgir a Luz. A luz, porém, não veio das trevas, pois as trevas são a ausência da luz. (texto RosaCruz)

Pelo exposto podemos começar a entender o sistema numerológico apresentado pela bruxa ao amigo de Mefistofeles. De forma análoga podemos compreender também o pensamento dos discípulos de Pitágoras em relação aos números (da unidade a multiplicidade, do divino ao mundano).

Quanto a Cabala hebraica, na parte referente aos sistemas numerológicos (Gematria, Temurah e Notaricon), a análise apresentada oferece uma pálida introdução, suficiente apenas para o leitor obter um entendimento que cada número (do 1 ao 10) representa uma emanação do Criador. Eles são os protótipos de todas as coisas, sejam espirituais ou materiais, existentes nos quatro planos de existência, e estão sintetizadas na Árvore Sephirotal.

Na próxima postagem, a última da série, o simbolismo dos Números 

sexta-feira, 23 de julho de 2010

História da Matemática e Numerologia - Parte III

Caro leitor, esta é a  3ª postagem sobre esse tema. Se nos acompanhar,  dispa-se de preconceitos academicistas daqui por diante.
 
Os Números: com um fará dez
En tò Pan

Uma abordagem holística em educação exige do educador uma mente aberta. Eis que, ao contrário da prática corrente surgida com os matemáticos gregos, segundo a qual em ciência só podemos aceitar um teorema depois de sua demonstração (ou seja, temos que demonstrar tudo que afirmamos), concordamos com John Fossa quando afirma que “não adianta, portanto, demonstrar tudo. Precisamos de um ponto de partida, um lugar seguro a partir do qual podemos iniciar as nossas demonstrações. Este ponto de partida são os postulados, ou seja, proposições que aceitamos sem qualquer demonstração” (2001, p.100).

O professor de Matemática deve mostrar aos seus aprendizes não somente que a Matemática é uma ciência presente em todas as ações e empreendimentos humanos e em todas as criações da natureza, mas, e fundamentalmente, deve construir com eles os conceitos holísticos que o estudo da Numerologia pode oferecer. 
 
Essa prática irá contribuir para que os estudantes aprendam a desenvolver o olhar que transcende a forma e o conteúdo, o olhar que enxerga o todo pelas suas partes e vice-versa, e assim percebam que as diferenças contribuem para o estabelecimento da igualdade; e tendo uma escola que ensine isso teremos,  certamente, um mundo melhor. É isso que Ubiratan D’Ambrosio almeja ao propor “uma Educação Matemática para a Paz” (2002, p.85). 

É isso que também desejamos ao propor uma  abordagem pedagógica da Numerologia. Segundo J.P. Bayard, "a confraria pitagórica, que se baseava num conhecimento matemático, era uma sociedade secreta muito fechada; sua doutrina baseava-se na Geometria (...). Para os pitagóricos, os Números podiam receber três definições: os números puros ou divinos, gerados pela mística do Número ou Aritmologia, os Números Científicos e, enfim, os Números Concretos, usados nos cálculos e nos negócios" (1976, p. 50). 

O imortal Goethe, conhecedor de princípios herméticos e autor de “Fausto”,  descreveu no diálogo protagonizado pela velha bruxa e Fausto, uma fórmula cujo significado é o mesmo: “Escutha atentamente. Com uno harám diez, y dos separarás y de esto modo harás três, y rico serás; las cuatro dejarás: com cinco y seis, te lo dice la bruja, haz siete y ocho, y todo queda terminado! Y nueve es uno; y diez es nada.”
 
A Cabala ou Kabalah (do verbo kabôl=ensinar), que é um corpo de conhecimentos místicos e esotéricos judaicos, ensina que “Tudo está no Um e que o Um está em Tudo”, ou como diziam os pitagóricos: “En tò Pan”, que significa “O Um é o Todo”. Eis um enigma de fácil decifração, mas que é o repositório de um conhecimento profundo, expresso de forma simples: todas as coisas têm um único centro gerador, uma “Causa Primária”.
 
Todas essas antigas fontes tratam de explicar a criação do Universo com base nos números, porém, como lidamos com uma linguagem de símbolos arquetipais, de uso mais corrente entre místicos e esoteristas, tentarei explicar as analogias apresentadas no poema goethiano, no pensamento dos pitagóricos e na máxima cabalística a partir de uma leitura numerológica.  Mas isso será a partir da próxima postagem. 

Calcula-se que com os 10 algarismos existentes pode-se realizar 2 milhões de combinações distintas.

Referências

*   Bayard, J.P. Os Talismãs. Ed. Pensamento. 1976.
* D’AMBOSIO, Ubiratan. Educação Matemática: da teoria à prática. Campinas, SP: Papirus. 1996 (Coleção Perspectiva em Educação Matemática)
* _________________. Etnomatemática: elo entre as tradições e a modernidade. Belo Horizonte. Autêntica, 2002 (Coleção Tendências em Educação Matemática)
* FOSSA, John A. Ensaios sobre a Educação Matemática. Belém, Pa. EDUEPA, 2001. Série Educação 2. 
* Goethe, Johann W. Fausto. Buenos Aires. Coleção Austral, 1964. 7ª ed.

terça-feira, 13 de julho de 2010

História da Matemática e a Numerologia - Parte II

Caro leitor, faz uma semana que iniciei a postagem com esse tema (Clique AQUI para ver). Dei um tempo esperando que esse assunto despertasse o interesse de alguns professores (de Matemática ou outra disciplina) e esperava receber alguma contribuição em forma de sugestões ou perguntas. Como nada veio, vou prosseguir no meu propósito de apresentar a Numerologia como auxiliar nas aulas de Matemática..............................................

História da Matemática e a Numerologia 

Assim como é em cima é em baixo

Eu costumava dizer aos meus alunos que a contagem apareceu antes da escrita, e também que acreditava que o homem aprendeu a escrever para poder registrar seus conhecimentos matemáticos. Contudo, afirma Ifrah, historicamente é a linguagem aritmética que, sem dúvida nenhuma, a humanidade teve mais dificuldade para assimilar (1997, p.12). O fato é que, por séculos, o homem observou a harmonia presente no Universo, buscando entender e interpretar os fenômenos que contemplava e relacioná-los com o que acontecia aqui embaixo.  

Essas observações desenvolveram seu natural instinto geométrico (2002), e com ele a percepção da existência de  uma, também natural, ordenação geométrica presente na criação. E isso pode ter disparado a matriz geométrica sobre a qual se ergueu a nossa civilização. A idéia de que a Matemática relaciona o macrocosmos e o microcosmos tem acompanhado o homem desde então, encerra os princípios evolutivos da humanidade e estabeleceu as bases sobre as quais se assenta(ra)m as civilizações. 

De fato, segundo Kepler (2002), tudo no Universo está associado à Geometria, consequentemente aos números. Porém, considerando o Universo a mais perfeita criação de Deus e a Geometria a ferramenta capaz de traduzí-lo, era natural que os antigos sábios, detentores desses conhecimentos, tratassem  essa ciência como sagrada (há, inclusive, várias pesquisas e publicações sobre a antiga Geometria Sagrada ou Divina Geometria). Eis porque seus ensinamentos  eram transmitidos secretamente apenas aos que poderiam apreciar sua beleza e compreender seus mistérios, ou seja, aos iniciados. Parece que, infelizmente, esse conceito excludente perdura até hoje, tanto entre pais quanto entre alunos e professores. 

Entretanto, sendo a Matemática um conjunto complexo de conhecimentos abstratos e formais que exige uma lógica rígida entre as relações estabelecidas e a estabelecer, parece natural que seus ensinamentos sejam dados aos que estão no estágio de desenvolvimento cognitivo adequado (Piaget). Por outro lado, apresentar os números como instrumentos preciosos e precisos como um bisturi a laser, faz parecer que somente um operador excepcionalmente habilitado pode operá-los. E isso pode contribuir para dificultar seu aprendizado. 

Como sabemos, parte significativa do trabalho pedagógico é despertar o interesse do aluno para um dado assunto e estabelecer conexões entre o que ele já sabe e o que deve aprender. Contudo, se tratando do ensino da Matemática, representar o conhecimento sempre foi um grande problema; por exemplo, usar os blocos de Dienes ou Material Dourado não garante que o aluno vá aprender o sistema de numeração decimal ou frações. 

No caso da Matemática, talvez, aprendendo a desvelar a enorme beleza oculta nalguns símbolos numéricos e geométricos; a criar relações entre esses símbolos, a natureza e o homem, e descobrindo que além de seu valor prático os números possuem finalidades muito peculiares, o professor pode explorar novas vertentes didáticas para tratar temas como a História dos Números, Noções de Número, Sistema de Numeração etc, e construir novas relações  entre a disciplina e seus alunos. 

Em 2003, conversando com Iran Abreu Mendes, um velho amigo Dr. em Educação Matemática e professor do Dep. de Matemática da UFRN, disse-lhe que o professor de Matemática deveria conhecer Numerologia. Não aquela usada como arte divinatória, que é o seu lado mais conhecido e para o qual a ciência torce o nariz. Propunha uma numerologia que permitisse ao aluno compreender que os números são muito mais que símbolos que usamos para representar quantidades e realizar operações. 

Iran não somente também já tinha esse olhar desperto como  já pretendia oferecer aos professores de Matemática elementos que possibilitassem alargar sua compreensão acerca dos números e sua simbologia. Assim, em 2005 publica "Números: o simbólico e o racional na história" (Natal. Ed. Flecha do Tempo, 2005), uma obra acadêmica modesta na forma, mas que abre caminho para a propositura de um estudo sobre Numerologia á luz da Educação Matemática. É uma leitura que recomendo entusiasticamente. 

Outra leitura excelente, e que também ajuda a construir uma ponte entre a tradição simbólica dos números e a Educação Matemática, são os trabalhos da pesquisadora lusitana Tereza Vergani, com quem tive o prazer de conversar há alguns anos. Aliás, um dos seus livros, o "O Zero e os Infinitos", foi o ponto de partida para  o artigo  "O Medo do Vazio: um olhar sobre a evolução do conceito de Zero", que apresentei durante o mestrado, e que está disponível para download na barra lateral deste blog, com novo título: "A Mística Origem do Zero" (se preferir clique AQUI para baixar)
Referências
* Abreu. Iran. Números: o simbólico e o racional na história. Natal, Ed.Flecha do Tempo, 2005.
* Ifrah, Georges. História Universal dos Números: a inteligência dos Homens contada pelos números e pelo cálculo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997.
*Ochmann, Horst. O instinto Geométrico: o processo astrológico a partir de Kepler. Porto Alegre, Sulinas, 2002.  
Leia a postagem anterior AQUI
Continua numa próxima postagem

terça-feira, 6 de julho de 2010

HÁ MAGIA NOS NÚMEROS?

História da Matemática e a Numerologia - I


Essa é a primeira de uma série de 5 postagens que intenciona mostrar que o conhecimento dos pitagóricos sobre a interpretação mágica dos números pode se tornar mais um elemento didático do professor de Matemática.

A História das Matemáticas (assim mesmo no plural) é um dos ramos mais interessantes da Educação Matemática. Conhecer a origem das coisas das Matemáticas torna seu ensino e aprendizagem mais prazeroso, mais significativo. 

Nesse particular, os algarismos, símbolos que representam quantidade, guardam muito mais significado do que a simples idéia de número. O estudo da simbologia encerrada em cada número, e nalgumas operações efetuadas com eles, como adição, permuta e combinação, é denominado Numerologia. 

Esse conhecimentos fazem parte de milenares práticas matemáticas em diversas culturas, e por si só já se enquadram no que é tão bem defendido e estudado por Ubiratan D'Ambrósio, pai da Etnomatemática no Brasil,  por Paulus Gerdes em Moçambique e Teresa Vergani em Portugal; apenas para citar três grandes pesquisadores.

Muito embora se encontre referências a numerologia em obras clássicas como as do  matemático marroquino Georges Ifrah*, tais saberes matemáticos não são transmitidos nos cursos de formação inicial ou  formação continuada de professores de Matemática. 

Talvez os educadores matemáticos se interessem pelo estudo da Numerologia como mais uma proposta de incremento pedagógico e de reforço didático para o ensino de Matemática, algo que torne o ensino dessa disciplina mais empolgante e interessante. Confesso que ainda é uma idéia em construção e aceito sugestões.

Penso que, talvez, fosse possível ao professor de Matemática desenvolver um novo olhar sobre universo dos números e  ensinar isso ao seu aluno. Ensinar um olhar diferente daquele que aprendeu a ter -e retransmitir- desde que se alfabetizou matematicamente.  

Ele aprendeu -e ensina- que o 0 (zero) e 1 são apenas dois algarismos que representam a dezena,  e/ou que o triângulo é tão somente uma figura geométrica de três lados e a primeira figura poligonal fechada. Mas há algo mais que isso no universo dos números. Há mágica e magia nos números, e isso pode ser um elemento poderoso no ensino da Matemática.

A partir dessa postagem quero dar início a esse projeto propondo  um olhar axiomático sobre alguns entes primitivos e conceitos Matemáticos tendo por base a Numerologia 
(continua na próxima postagem - Acima)

* Confira em "Letras, Algarismos, Magia, Mística", pgs.221 a 227 de Os Números: a história de uma grande invenção, e em "Algarismos, Escritas, Magia, Mística e Advinhação", Capítulo XX  de História Universal dos Algarismos.

Referências
Ifrah, Georges. Os Números: a história de uma grande invenção.  Rio de Janeiro. Ed. Globo, 1989. 
____________ História Universal dos Algarismos. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cenas de Ruas de Belém 3

Mais cenas de Ruas de Belém

Como já está se tornando um hábito  -que pode vir a ser uma tradição- deste blog,  a cada fim de mês temos uma postagem especial que denomonei "Cenas de Ruas de Belém." Desta feita apenas tomei por mote algo que sou grande apreciador desde 1969, quando ingressei no Instituto Histórico e Geográfico de Nova Iguaçu (RJ) e que tem, gradualmente, desaparecido de Belém: as fachadas de velhos casarões.

Estes dois prédios ao lado ficam na Trv. Padre Eutíquio, centro da capital, ao lado do Shopping Pátio Belém, o 1º da cidade.  Note o que está num estado de total abandono. Ele ainda guarda a imponência do passado, e hoje é o vizinho feio do Shopping. Me dá uma profunda tristeza contemplar isso. 

Logo defronte ao Shopping Pátio Belém há uma rua estreita, chamada Rua dos 48. Nela registrei o belo prédio abaixo. Mas o que me chamou a atenção nele não foi sua fachada azulejada, mas  foi o frontispício (em detalhe). Retirei os fios elétricos da foto para oferecer uma melhor imagem.

O curioso deste frontão é que ele traz alguns símbolos místicos e esotéricos de origem hindu e hebraica, que formam  o sêlo da teosofia, o símbolo oficial da Sociedade Teosófica de Blavastky.

Vê-se, em sânscrito, a representação gráfica do som primordial AUM,  o sagrado pranava OM.   Abaixo dele podemos observar a milenar cruz suástica, inclinada de 45º, que simboliza o eterno movimento cósmico; no centro temos dois triângulos equiláteros entrelaçados que representam o Princípio Universal da Dualidade, os processos de involução e evolução, e formam a conhecida estrela de Davi.
Dentro da estrela uma cruz ansata (egípcia), símbolo do domínio do espírito sobre a matéria onde o espírito esta preso. É uma bela alusão ao apelo sexual que macula a pureza sexual criada por Deus. E tudo circundado por Ouroboros, ou a serpente, que representa o princípio sem fim, mas que alguns vêem como o Diabo.

Ainda próximo ao Shopping passam a Rua Veiga Cabral e a Acipreste Manoel Teodoro. Elas formam a Praça Coaracy Nunes, uma minúscula praça que, por conta de sua forma triangular, é popularmente chamada de Praça Ferro de Engomar.

Como gêmeos, os dois bonitos prédios ao lado estão diante desta pracinha, e a parede de azulejos com o portão também.

O grande muro coberto de azulejos portugueses apresenta um interessante frontão triangular, encimando um portal que no passado devia ter um magnífico trabalho de azulejaria (veja o detalhe abaixo), desgraçadamente destruído quando colocaram um grande portão de maderia, provavelmente para uma garagem.

É penoso, para que aprecia e respeita essas belas e artísticas manifestações arquitetônicas de antigamente, se deparar com o estado em que elas se encontram hoje, seja pela ignorância ou dificuldades financeiras de seus proprietários, seja pela ambição imobiliária ou pelo descaso do poder público que deveria preservar tais tesouros. 

Esse acervo histórico, artístico e cultural da cidade é um patrimônio de seu povo, é sua memória, mas parece que todo mundo pensa que a memória histórica é para ficar apenas nos livros.

Os velhos casarões, belos e imponentes, orgulhosos de sua história e função não podem sozinhos resistir ao apelo do mercado imobiliário, e a arte dos antigos mestres de obras, pedreiros e  carpinteiros vai desaparecendo irremediavelmente. Não há beleza artística nas fachadas modernas, e se continuar assim não haverá mais nenhuma fachada bonita que embeleze a cidade, e fale de sua história para mostrarmos aos nossos filhos ou simplesmente para que possamos apreciar num passeio pela cidade .
No TOP BLOG 2011 ficamos entre os 100 melhores da categoria. Pode ser pouco para uns, mas para mim é motivo de orgulho e satisfação.
Sou muito grato a todos que passaram por essa rua que é meu blog e deram seu voto. Cord ad Cord Loquir Tum