quinta-feira, 29 de maio de 2008

As vantagens dos Blogs para alunos e professores

Não costumo postar material que não sejam meus, mas como esse texto que segue é muito interessante para o trabalho que desenvolvo com professores, no NTE e no NIED de Belém, peço licença para transcrevê-lo aqui.
...............................................
AS VANTAGENS DOS BLOGS
Blogs E Os Principais Benefícios Para Professores E Alunos
*Aproximar professores e alunos: Os estudantes tendem a se identificar com o professor blogueiro. Se o aluno cria um blog, os professores têm um espaço a mais para orientar o aluno.
*Permitir maior reflexão sobre o conteúdo: Quando o professor blogueiro expõe sua opinião, está sujeito a críticas e elogios. Com isso, reflete sobre seu trabalho e faz os alunos pensar mais sobre o tema proposto.
*Manter o professor atualizado : O professor blogueiro busca em outros sites e blogs informações para compartilhar com os alunos. Isso o coloca em permanente reciclagem.
*Criar uma atividade fora do horário de aula: O estudo não fica restrito aos 45 minutos de sala de aula. Com o blog, o professor instiga os alunos a estudar mais. Eles buscam no blog desafios, exercícios e gabaritos.
*Trazer experiências de fora da escola: O blog abre as atividades da escola para pessoas de outros colégios, cidades e até países colaborarem. Isso amplia a visão de mundo da turma.
*Divulgar o trabalho do aluno e do professor: As produções do aluno ou do professor podem ser vistas, comentadas e conhecidas por qualquer internauta do mundo. Isso é um incentivo para alunos e professores se dedicarem.
*Permitir o acompanhamento: Com os blogs, os pais podem monitorar as atividades escolares dos filhos. E também ter acesso ao que o professor está ensinando. Isso não é possível com as aulas.
*Ensinar linguagem digital: Ao montar blogs, alunos e professores passam por um processo de "alfabetização digital". Aprendem a fazer downloads e outros recursos para navegar com facilidade.
Fonte: Revista Época.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Mais sobre Simonal

Na lista Blogs Educativos, da qual participo com muita satisfação, recebi algumas mensagens de apoio as postagens em defesa da memória de Wilsom Simonal, que tenho apresentado aqui(confira-as abaixo). Decidi transcrever a mensagem que enviei à lista e algumas das respostas que recebi, as quais agradeço penhoradamente.
PS: Para não ficar monótono e enfadonho, não postarei tão cedo outras notas sobre esse assunto.
..................

Boas noites, pessoal.
Aqui em Belém os professores da Rede Pública estadual estão em greve a quase 30 dias. No dia 09 pasado, cerca de 1000 professores fizeram uma manifestação na frente da SEDUC e a polícia aparece com tudo que tem direito, bombas, balas de borracha e porrada: baixou o cacete. Saiu nos jornais e TV ...
Bem, nao concordo com a ação dos professores em fechar uma rodovia, por barricadas, queimar coisas na estrada etc. mas tb. nao podemos aceitar essa atitude da PM, ainda mais num governo do PT... E' isso mesmo, o governo estadual e' PT! E votamos nele!!!
Enquanto isso, com tanta propaganda pela luta dos direitos dos negros, pelo resgate (ou remissão dos crimes cometidos contra os negros no Brasil?), pela cidadania dos afrodescendentes; discussões sobre o sistema racista de cotas para negros nas universidades, criação do Dia da Consciencia Negra etc, nao vi nenhum desses expoentes da comunidade negra brasileira se manifestarem pelo resgate da memória e injustiça sofrida pelo grande artista que foi Wilson Simonal.
Morto em 2000, até hoje Simonal está relagado ao ostracismo, abandonado pelos próprios companheiros de cor. Como ele cantava em seu Tributo a M. Luther King: "Sim, sou negro de cor. Meu irmão de minha cor, o que te peço é luta sim... (...) Com uma canção também se luta irmão. Ouve minha voz lutar por nos".
Eis aqui um hino composto na decada de 1960, quando a luta da comunidade negra brasileira por seus direitos sequer saía em jornais e na TV, mas não se ouve em esse canto em canto algum, ainda que a mídia fale tanto sobre isso hj. em dia.
Nenhum artista neste país, seja negro ou branco, sofreu tanta injustiça e preconceito quanto ele. E e' por isso que o homenageio no meu blog sempre que posso.

E estou preparando um blog totalmente dedicado a Wilson Simonal. Vou juntar tudo que encontrar sobre ele num único lugar, para os fãs desse inigualável e injustiçado artista terem acesso fácil a esse material. Se algum de vcs tiver algum material, fotos ineditas de show que assistiu, um vídeo, um autográfo (eu tinha! eu tinha!) ou souber de alguém que tenha e quiser contribuir com esse projeto, eu ficarei muito agradecido.
---------------------------------------------------------------------------
Mensagens da Semíramis e Cybele Meyer, recebidas em 24/05.

*OI, Franz.
*Fiquei supresa que não estou sozinha ao lutar pelo direito das minorias. Achei muito interessante sua visão sobre os problemas que os afrodescendentes enfrentam em nosso país que se diz não racista.*
*A gente vê o racismo e o preconceito social todos os dias: nas filas dos bancos, nos textos jornalísticos (vide o artigo que postei no meu blog sobre o texto da jornalista Sandra Cavalcanti, uma apologia a descriminação racial) nas decisões políticas e ninguém faz absolutamente nada. Se o negro, o índio, o espírita, o umbandista, budista, tatuado, coreano for até a polícia ou a justiça reclamar que está sendo vítima de discriminação, nos tacham de encrenqueiros. A gente fala da discriminação racial, mas se esqueçe que a religiosa e a social podem ser muito mais daninhas, pois de repente há uma comunidade inteira dando as costas à você e promovendo um retorno às fogueiras inquisidoras. Portanto, sua homenagem ao Wilson Simonal veio bem à calhar, e de seu blog, virei fã de carteirinha!!! * *Semíramis*
.............
Olá Franz, Parabéns pela iniciativa. Eu também nunca me conformei com a injustiça que fizeram com ele. Eu adorava sua ginga ao falar, ao cantar. Eu tinha o "mug', não sei se é do seu tempo, porém ele embolorou =(
Eu morava em Santos e lá é muito úmido e no fim tive que jogar fora porque ele ficou muito fedido. Porém tenho jornais antigos e revistas tipo Manchete e O Cruzeiro que irei fazer uma triagem e tudo que eu encontrar bato foto e te mando, ok!
Cybele Meyer

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Para matar a saudade!

Quem caminha por esta rua já cruzou com alguns personagens que compõem seu cenário urbano, como o Mercado do Ver-o-Peso e a baía do Guajará; já encontrou em algumas de suas calçadas e esquinas os Louco da minha cidade, um Rei nú, o Contador de Histórias, O Professor alquimista em greve, Einstein e outros.
Agora olhe quem está parado numa esquina qualquer: o rei da Pilantragem, o showman admirável e artista incomparável chamado Wilson Simonal (post "Anistia para Wilson Simonal"), por quem tenho grande apreço e admiração.
Em 1972 Simonal caiu em desgraça no meio artístico, provocada por calúnias e difamações injustificadas, e em 25 de junho de 2000 morreu amargurado, sem receber a justiça e recuperar seu prestígio. De lá pra cá algumas tentativas de homenageá-lo foram feitas, uma delas é a Box Wilson Simonal na Odeon, contendo 9 CD e um livro com sua biografia, produzida por Max de Castro e Simoninha, os dois filhos de Wilsom.
Pedi emprestado ao Simonal sua antológica "Nem vem que não tem", de Carlos Imperial, que lançou o gostoso gênero "Pilantragem", um estilo de cantar swingado e cheio de molejo, feito sob medida para Simonal.
Num mundo cheio pilantragem, de gente pilantra que sacaneia os outros, de políticos pilantras, de imprensa pilantra, de artistas pilantras, Wilsom Simonal deu um novo sentido a esse conceito velho. Nos deu uma pilantragem que é alegria, humor, swing, savoir vivre e savoir faire, e é assim que gostaria de ver este mundo: cheio de "pilantragem".
Foto obtida no site indicado no link acima.
CLIQUE NA FIGURA ACIMA PARA OUVIR A MÚSICA "NEM VEM QUE NÃO TEM"

quarta-feira, 21 de maio de 2008

A Greve dos Professores do Pará

Aqui no Estado do Pará os trabalhadores em educação da rede pública estadual estão entrando na sua 4ª semana de greve, e segundo o Sindicato dos Trabalhadores na Educação Pública do Pará-SINTEP, 96% da escolas da área metropolitana de Belém aderiram ao movimento paredistas, que já atinge mais de 70 municípios.
A categoria quer 30% de reajuste e vale-alimentação de R$ 400, além dos eternos pedidos de melhorias nas/das condições de trabalho. Mas o governo oferece reajuste de 6,5% e vale-alimentação de R$ 100,00 para servidores de nível superior. Para nível médio o aumento é de 9,2%, e 10,7% para o nível fundamental com vale-alimentação de R$ 50,00, suficiente se alguém pudesse almoçar com R$ 1,50 por dia. Enquanto isso, professores lotados na sede e professores da UEPA ganham vale-alimentação de R$ 400,00.
Dia desses ouvi pelo Jornal da Manhã, da Rádio Cultura FM, uma entrevista com Cláudio Put, Chefe da Casa Civil. Ele justificava esse reajuste diferenciado (10,7% e 6,5%) porque se o governo desse o mesmo percentual para todos cometeria uma injustiça pois, por conta da gratificação de nível superior e tempo de serviço, alguns professores receberiam mais que os que não possuem nível superior.
Trocando em miúdos significa dizer que, para o governo, aquele professor que já trabalha a duas décadas, que se esforçou para melhorar na sua profissão, buscando uma pós-graduação, um mestrado, um doutorado, deve ser penalizado por isso. Seria risível se não fosse trágico!
Comparo essa declaração do Chefe da Casa Civil com a que o Delegado Geral da Polícia Civil do Pará, Raimundo Benassuly, deu a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, durante o rumoroso caso da menina presa numa cela cheia de homens, em Abaetetuba. Para o delegado a culpa era da menor que devia ter problemas mentais, pois não falou que era menor de idade. Kkkkkkkk.... É mole!

Não há previsão de volta às aulas nas escolas da SEDUC, no entanto o Governo conclamou os alunos a retornarem às escolas na segunda-feira, dia 19/05, afirmando que as aulas estavam normalizadas. Enquanto isso, o tratamento dado à educação pública vai de mal a pior, independente do estandarte político e do discurso de quem detém o poder. Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra! Quosque tandem!

sábado, 17 de maio de 2008

Física na Cuia

Hoje decidi remexer em velhos projetos que não deram certo. Faço isso de vez em quando, como parte do meu processo de auto-avaliação da minha caminhada como educador e como indivíduo que gostaria de deixar rastros mais sólidos no mundo. Alguns desses velhos projetos recebem uma repaginada e nova tentativa, outros não passam de construções abandonadas pelo caminho, e me deixam a sensação que talvez eu devesse ter tentado mais, insistido mais.
Assim, revi um grupo que criei em 2005 no Yahoo Groups, denominado FÍSICA NA CUIA. Era um espaço para que meus alunos do Ensino Médio da rede pública estadual do Pará pudessem discutir suas dificuldades na aprendizagem de Física com outros estudantes, tanto do estado quanto de todo território. Eu pretendia oferecer aos estudantes do EM uma ferramenta para a identificação de problemas comuns que eles enfrentavam no ensino da Física, e a consequente elaboração de propostas para a sua solução.
Os colegas professores de Física eram convidados a estimular a participação de seus alunos, porém era-lhes vedada a participação para não inibir os alunos. Teve vida curta esse grupo, pois pouco depois eu saí da escola e desde então só tenho trabalhado em cursos de formação de Professores.

Eis algumas das postagens dos alunos (mantida a grafia original)
*A minha dificudade na fisíca e as formula e muita coisa... 27 de Out de 2005 5:52 pm
*O calculo da fisica e conpricado porque mistura muito numeros e letras podia ser menos letras e con isso so numeros podia ser melhor para nos enteder tanbem...
*Eu nõa emderdo o mru...
*Eu tenho dificuldade em aprender como fazer os calculos....
*fisica a parte tenpo versos velocidade e conpricado porque mistura muitos numeros con fraçoes era melhor con numeros inteiros e tanbem a velocidade podia ser pouco mas explicado...
*E ai do pogalera rco gostaria de diser que eu nao intendo nada fisica sâo muitas coisas difisies a ja ia esquesendo voçes são muitos feios que doi...
*vcs sabi o seguinifica da palavras mru... na fisíca o mru eo que?...
*eu nao gosto muito porque e muito dificil e com isso eu me atrapalho todo com todos os assuntos da mecanica...
*Galera oque siguinifica o mru...
*As compliksões de fisík. A FISÍK É MUITO COMPLIKDA PORQUE FAZ MUITO CALCULO E TAMBEM MISTURA MUITO NUMERO LETRAS E ASSIM AKBA DEIXANDO TODO MUNDO EMBASBAKDO.
Enviada em - Qui, 10 de Nov de 2005 6:34 pm

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O REI ESTÁ NÚ: O velho paradigma em agonia.

Trecho do artigo intitulado À ESQUERDA DA PESQUISA À DIREITA DA PRÁTICA: UM NOVO REFERENCIAL PARA O PROFESSOR TENDO POR BASE AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO, escrito EM 2006.
........................................................

As transformações, as renovações, a evolução são as respostas naturais às crises. Daí que toda crise encerra em seu bojo uma perspectiva criativa e permite que se apresente uma nova abordagem para um velho modelo. E foi tomando por base o princípio que toda mudança pode ser facilitada, mas não dirigida, Thomas Kuhn publicou The Structure of Scientific Revolution em 1962, onde introduziu a expressão “mudança paradigmática”.
Um paradigma é um esquema para a compreensão e a explicação de certos aspectos da realidade, no entanto creio que o paradigma educacional ainda vigente além de não comportar as mudanças que a nova realidade apresenta, ainda cria um descompasso - podemos mesmo dizer um paradoxo - entre a ciência que se constrói e a que a Academia teima em transmitir ao professor em formação, e este impõe aos seus alunos. Parece-nos como a estória da roupa do rei, dos contos de Andersen , confeccionada com um tecido que apenas a inteligentzia poderia enxergar.
O fato é que o velho referencial agoniza e o paradigma emergente fez como a criança da estória, que apontando o dedo para o monarca que desfilava orgulhoso seu novo e luxuoso traje real, revelou a verdade ao gritar: O rei está nú!
A questão do referencial sempre norteou os trabalhos dos pesquisadores, seja na ciência ou na educação, em que pese os paradoxos presentes tanto numa quanto noutra. Ele, o referencial, é o “óculos” através do qual o sujeito ordena o seu universo, se enxerga e se compreende. Com relação à educação, é facilmente perceptível que a escola mantém-se apegada a conceitos que a ciência vem, sistematicamente, derrubando ou revendo. Para chegar a essa conclusão, basta observar o ensino de Ciências ou folhear alguns livros didáticos de Ensino Fundamental Médio para Ciências e Biologia, e veremos que apresentam um enfoque acentuadamente antropocêntrico. Podemos ilustrar isso com alguns exemplos, tais como:
- a escola ainda aponta que existem seres animados e inanimados;
Sem perceber que toda vida é energia, sob diversas formas.
- ensina-se, ainda, que existem duas categorias de seres na natureza: os benéficos ou úteis ao homem, e os nocivos;
E com isso o aluno tende a ver a natureza como um local perigoso, onde certos animais precisam/devem ser exterminados.
- ensina-se que o Sol “nasce” no Leste e se põe no Oeste.
Ainda que seja apresentado como “movimento aparente”, dá a entender que Galileu estava errado ao afirmar que é a Terra que se move em torno do Sol.

Como aprendemos, um dos requisitos fundamentais da ciência é a premissa que “sempre que se estabelecem as mesmas condições, deve ocorrer a mesma coisa. Isso simplesmente não é verdade, não é uma condição fundamental da ciência” (1999, p.76); noutras palavras, para a ciência já não há mais certezas absolutas e permanentes, porém e tão somente, probabilidades, possibilidades. A ciência, sob esse novo paradigma, está sempre num processo de revisão, sempre buscando uma identidade entre o fenômeno observado e o descrito.
Tomemos a interpretação de Copennhagem, formulada por Niels Bohr e Werner Heisenberg, segundo a qual não há realidade até o momento em que ela é percebida pelo observador, alie-se a isso os trabalhos de pesquisadores reforçando que a natureza dos nossos avós não é a mesma de hoje -“temos uma nova descrição da natureza”, diz Prigogine (1996. p,11)-, e veremos que as teorias descritivas dos eventos naturais passam a ser encaradas como criações da mente humana; meros esquemas conceituais de aproximação da realidade. Em outras palavras, significa dizer que o fenômeno em observação responde conforme a posição que o observador assume.
Dessa forma, a realidade com a qual nos deparamos é uma ilusão ou como diziam os antigos mestres hindus: este é o mundo de Maya . Dito desta maneira, tal afirmação pode parecer algo tão complexo quanto absurdo, mas devemos ter claro que o homem tende a ver a natureza como um agregado de sensações que, quase sempre, só existem na sua mente. Nessa perspectiva, nossas impressões não passam de construções mentais. Tomemos, por exemplo, as sensações físicas de frio e quente, de prazer e dor, ou impressões como amargo e doce, odores, cores etc., todas são originadas na mente humana.
A natureza é, pois, fruto da mente, e tende a assumir aspectos e contornos das concepções do sujeito que a observa. Se assim considerarmos, notamos o quanto o modelo hegemônico de educação, centrado no paradigma mecanicista clássico, nos distancia da realidade que se desvela aos que estão despertos. De fato, o rei está nu em pelo.
REFERÊNCIAS.
PRIGOGINE, Ilya. O fim das Certezas: tempo, caos e leis da Natureza. S. Paulo: UNESP, 1996.
______________. Construir as Competências desde a escola. Porto Alegre: ArtMed, 1999

terça-feira, 6 de maio de 2008

Os loucos da minha cidade

Como digo no cabeçalho do Blog, aqui é meu rio e minha rua, onde escorrem cenas do meu cotidiano de buscador, de educador, de aprendiz, de pai. Por aqui navegamos eu, meus amigos e minhas criações. A postagem anterior me lembrou deste conto, que escrevi faz alguns anos. Se gostar não se acanhe em deixar seu comentário.
...................

Aquele início de tarde junina estava extraordinariamente quente, e se querem saber, duas coisas me deixam particularmente irritado: calor e viagem em coletivos. E, para meu azar, sobra calor nessa cidade e me falta dinheiro para comprar um carro com ar refrigerado. Com esse estado de espírito cheguei à parada de ônibus.
O calor e a demora dos coletivos também parecia afetar o humor das pessoas naquela parada de ônibus. O meu mau-humor era visível, ainda mais com o suor escorrendo suvaco e costa abaixo, empapando a camisa.
Olhei em frente e um pouco à esquerda para além da praça, para a esquina por onde desembocam os diversos coletivos que trafegam por aquela artéria, e nesse instante o vi. Atravessava a rua asfaltada em nossa direção. Ainda não era “o louco”, mas um pobre coitado qualquer, um dos muitos miseráveis que perambulam maltrapilhos, pedindo aqui e acolá, fuçando lixos, vivendo de rebotalhos.
Trajava apenas uma velha e imunda bermuda de cor indefinida e tão justa que não abotoava na cintura; e aquele Sol abrasador, que me aguniava, parecia não lhe causar qualquer incomodo. Claudicava um pouco. Em um dos pés uma sandália tipo Ridder, no outro uma sandália de dedos, tipo havaianas.
O pé com a Ridder pisou a calçada onde estávamos. Olhei-o rapidamente (com certo asco, confesso): - “Será que esse sujeito vem se abrigar do Sol justo aqui? Ou veio pedir dinheiro? Dinheiro, não dou, é contra meus princípios!”, pensei. - Quanto ao lugar à sombra dei de ombros, mas ameacei uns passos na tentativa de buscar outro canto. Contudo o espaço sombreado era pequeno e já estava todo conquistado. Resignei-me.
Olhei para além da praça mais uma vez. Nada do meu ônibus surgir. Com o canto dos olhos conferi que o mendigo (ainda não era “o louco”) permanecia olhando-nos calado na mesma posição: um pé no meio fio e outro no asfalto. Somente os olhos se mexiam, mas não fixavam ninguém em particular.
As pessoas na parada de ônibus forçavam indiferença, fingindo não perceber sua presença silente e cada vez mais incomoda. As mais próximas recuaram um pouco. Um ônibus despontou lá na esquina, contornou a pequena praça descrevendo um grande semicírculo e estacionou rente a ele, e ele nem. Embarcaram os que tinham que embarcar, apeou-se quem tinha de apear-se e o coletivo seguiu viagem. O louco (eu já começava a achar que aquele indivíduo ali parado não era muito bom da cabeça) permanecia do mesmo jeito. Derrepente, feito um vulcão inativo que desperta, explodiu em palavras e perdigotos:
- Falsos! Falsos! Pensam que não sei, é? Eu sei! Eu sei!... Braço e dedo em riste, como cano de metralhadora, iam de um extremo ao outro do grupo a sua frente: - Todos falsos, hipócritas, fingidos!
Reboliço na parada. As mulheres buscaram o fundo. Uma até preferiu enfrentar o Sol escaldante a ficar perto daquele maluco que vociferava contra todos: E se ele resolve-se atacar?
- Cruz credo! - disse uma senhora ao meu lado, persignando-se. Mantive a minha fleuma: “Cão que muito late não morde”, desprezei.
- Eu vou mostrar - gritou o louco (nesse instante eu já não tinha mais dúvidas). Então, enfiou a mão num bolso da bermuda camuflado pela sujeira, tentando extrair algo. A mão, que pela justeza das roupas entrou com dificuldade, mais dificuldade teve para sair. Ele tentava sacar a mão dando repetidos e violentos puxões. Me lembrei da história do macaco velho e da cumbuca e sorri discreto, mas temia que o tecido não agüentasse o tranco. Outra mulher resolveu que era melhor ficar ao Sol do que à sombra com um doido, e foi para junto da primeira, e puseram-se a conversar. Notei que um pequeno grupo de estudantes começava a achar tudo aquilo muito engraçado. Riam do esforço do maluco para sacar a mão do bolso. As outras pessoas também pareciam curiosas.
- O que será que ele tem ali? - perguntou um dos estudantes para um seu colega.
- Sei lá! Vai ver que é um elefante, por isso tá difícil de sair.- E riram um bocado.
A mão escapuliu segurando algo. Era um objeto branco quase do tamanho de um maço de cigarros. Firmei a vista sem descobrir o que era até que ele deu três passos para trás e, abaixando-se, começou a riscar o asfalto. Era um pedaço de forro de gesso.
- “A”! - gritou apontando para a letra de forma que acabara de desenhar no quadro negro da rua -. “A” pode ser de “amor”, de “amigo”, de... - Não tive mais dúvidas. Só um louco falaria de amor e amizade em pleno meio da rua, ainda mais com aquele solzão dos diabos nos costados.
Na parada de ônibus as pessoas esperavam. Umas já sorriam, até. As duas mulheres que estavam ao Sol viram que ele era inofensivo e retornaram.
- “B”! - gritou novamente, repetindo o gesto anterior -. Pode ser de “boca”, de “beijo”, de... -Um dos estudantes disse algo que não ouvi e os outros caíram na gargalhada.
Carros de passeio passavam zunindo ao seu lado. Uma buzina descarregou frustrações e de um dos carros alguém lançou um palavrão: - Sai do meio da rua, f...!!
-...boca que beija, que bebe - continuou ele, alheio a tudo o mais -.
Levantei os olhos para seus olhos. Vermelhos e baços indicavam que devia ter conjugado o verbo “beber” diversas vezes, contudo a voz era segura e clara.
- “C”! Com “C” escrevo “coração”, “cabeça”, “carinho”...
Ora gritava como se discursasse em palanque, ora falava baixo como de si para si.
-“D” é letra divina. Com “D” escrevo “Deus” e “Diabo”...
Novas risadas dos estudantes. Dessa vez ouvi quando um deles disse:- “E doido também!”
- Deus e Diabo, duas pontas do compasso; duas faces da mesma moeda - outro “cruz-credo” da senhora ao meu lado e novo “pelo sinal”- na divina comédia humana.
Comecei a considerar que aquele indivíduo podia ser doido, mas certamente tinha instrução e leitura. Observei-o traçar novas letras no chão, indiferente aos carros, ao calor que subia em ondas do asfalto e, talvez, a própria vida. Me compadecia, aquele sujeito. Olhei para o relógio: quinze minutos de espera! Ia chegar atrasado novamente.
Um ônibus apontou lá na esquina além da praça. Pela cor vi que não era o meu. Absorto em meus pensamentos, esquecera por um momento o louco no meio da rua, até que ouvi:
-“M”!.. Ele não dissera “eme”, mas “me”. E isso atraiu novamente a minha atenção. Foi então que percebi: ele não dizia o nome das letras, mas os fonemas. Olhei para o chão onde estava escrito o alfabeto até o “m”. Não esquecera nem o “k”.
O ônibus entrou na grande curva que contorna a pracinha e aproximava-se veloz. Outros carros também contornavam aquela curva, na mesma direção e sentido do ônibus. As pessoas na parada de ônibus aguardavam. Meus olhos foram do homem no meio da rua ao coletivo que se aproximava e deste ao homem, num átimo.
O motorista apertou os freios que chiaram no asfalto. O ar recendeu a borracha queimada. A buzinada forte assustou o pobre homem que pulou para trás, enquanto a condução estacionava com um rangido de pneus, ocultando-o de minha vista.
Nesse exato instante o grito esganiçado de pneus sendo travados causou-me um sobressalto e o som de um baque violento comprimiu meu peito. Não vi, mas adivinhei o choque. Correria de pessoas contornando o ônibus estacionado. Dele desceu o motorista e alguns passageiros; outros debruçaram-se pelas janelas.
Fui indo devagar, pois já sabia o que encontraria. Cheguei no momento exato em que um jovem descia agitado de um bonito carro branco e juntava-se ao grupo que rodeava o corpo estirado no asfalto.
- Eu... Eu não vi... Não tive culpa... Meu Deus!... Ele... Ele pulou na minha frente, juro...- gaguejava o nervoso rapaz. Estava da cor do pedaço de gesso na mão imóvel do atropelado. Olhou para seu bonito carro e tudo que disse foi: - Meu carro!..
Ouvi alguém ao meu lado dizer “Cruz credo!” e nem precisei me voltar para saber que aquela senhora estava novamente se persignando. Um dos estudantes falou: - “Coitado, se fosse analfabeto ainda estaria vivo”. Apesar das circunstâncias não pude deixar de sorrir ante aquela lógica meio bizarra.
Carros passavam lenta e silenciosamente. O motorista do ônibus estacionado passou por mim: - Vam’bora gente, que eu tenho horário pra cumprir!- tomou seu lugar ao volante, deu duas curta buzinada e partiu.
Outro ônibus aproximava-se devagar. “Até que enfim” - pensei. Enquanto embarcava lancei um olhar para o corpo estendido no asfalto, ao lado das letras brancas e graúdas. Então percebi que ele parara exatamente - e curiosamente - na décima terceira letra do alfabeto, a letra “m”, fonema “me”. O que ele falaria do “M”....? Franz Kreüther Pereira

quinta-feira, 1 de maio de 2008

BEM E MAL: UMA RELAÇÃO NECESSÁRIA

Nesta semana, dois de meus colegas de trabalho me questionaram a respeito de minha opinião sobre o conceito de Deus e Diabo. Assim, decidi postar algumas reflexões sobre essa questão. Caso esse pequeno texto lhe traga com algum esclarecimento sobre esse assunto, não hesite em deixar seu comentário.

Vamos falar um pouco dessa dualidade tão presente em nosso mundo sublunar: Bem e Mal; Amor e Ódio, Deus e Diabo... Para isso, imaginemos nosso ancestral, ainda desconhecedor do fogo, necessitava da luz solar para caçar, se alimentar, se aquecer e se defender. Em contrapartida, as noites eram habitadas por ruídos completamente apavorantes e seres estranhos, monstruosos, dos quais ele via apenas vultos. Mas ao romper do dia, com a luz do Sol, esses sons e vultos desaparecia (ele desconhecia a existência de predadores notívagos).
Assim, quando o manto escuro da noite descia, encobrindo a Luz, nosso antepassado era invadido por uma sensação de medo, desconforto, insegurança; sensações estas completamente opostas as que experienciava durante o dia. Dessa maneira, foi fácil para ele associar as sensações e qualidades boas à luz, e as qualidades más à escuridão.
Essa antítese harmoniosa formada pela luz e sombras marca o primeiro dualismo, cuja maravilhosa síntese é o conhecimento que distingue os homens dos animais; a sabedoria que permite representar uma idéia através de símbolos. E, como praticamente toda função mental é simbolizadora, ele empregou símbolos com a intenção de “instruir” e “lembrar” as impressões que essa dualidade lhe suscitava. A partir desse ponto nosso antepassado Erectus começou sua ascese rumo ao Sapiens. Penso que,possivelmente com essa necessidade de transmitir uma impressão ou uma descoberta, surgiu o primeiro professor.
De lá, das cavernas até os tempos modernos, pouca coisa mudou com relação à percepção do Bem e do Mal, exceto que com o advento das religiões o Mal passou a ser uma sombra terrível dominando a vida do homem. Mas, como dizem os budistas, essa condição reside na ignorância de que onde há trevas também há luz, pois o Mal é apenas uma manifestação da dualidade do Cosmos. De fato, tudo em nosso universo tem dois pólos, e aquilo que atinge seu ponto máximo se transforma em seu oposto, portanto, num certo sentido o Mal é a escuridão necessária para que a Luz possa ser percebida.

*A imagem é de Eliphas Levi, e representa Baphomet, o bode sabático. Encontra-se no seu Ritual e Dogma da Alta Magia
No TOP BLOG 2011 ficamos entre os 100 melhores da categoria. Pode ser pouco para uns, mas para mim é motivo de orgulho e satisfação.
Sou muito grato a todos que passaram por essa rua que é meu blog e deram seu voto. Cord ad Cord Loquir Tum