segunda-feira, 21 de abril de 2008

A Magia Da Tradição Oral: o Contador de Histórias.

“Entrei pela perna do pato, sai pela perna do pinto...” ou A Magia Da Tradição Oral: o Contador de Histórias.
Antigamente, o contador de histórias era um tipo necessário na sociedade, que não contava com a televisão e seus recursos. Desempenhava ele um dos papéis mais importantes na educação informal das crianças: dava-lhes os elementos necessários para a compreensão da realidade, que muitas vezes parecia-lhes adversa, medonha, sombria. Através de suas histórias, seus contos, “causos”, fábulas, lendas, etc. o contador apresentava uma visão de mundo, com seus conflitos humanos e sociais, com suas lições de vida, as quais o ouvinte iria recorrer nalgum momento de sua vida.
Originalmente, os “contos” eram narrados na Idade Média, durante as noites invernosas nos castelos “mal-assombrados”, nas fazendas isoladas, nas aldeias espalhadas pelos campos, com a finalidade de trocar experiências e afastar os temores e aflições pela corrente de força criada pelo grupo quando reunido ao redor do “contador”. A luz bruxuleante das fogueiras, ou das lareiras acessas, projetava sombras fantasmagóricas ao redor do grupo e atiçava-lhes a, já fértil, imaginação. O mundo de então era povoado por monstros, dragões, demônios, magos e feiticeiros, por seres encantados e encantadores. A magia pairava no ar, espalhava-se nas fumaças das fogueiras e chaminés, escondia-se nas sombras, despertava no crepitar do fogo. E nesse ambiente é que surgiu a importante figura do Contador de Histórias.
Além de repetir estórias,o contador também as criava, a medida que observava as reações de seus ouvintes. A educadora Bárbara Freitag, num excelente artigo para o Jornal da Alfabetizadora intitulado "O conto de fadas na sala de aula" ( n o. 13. 1991, 17-19 ) atesta que o narrador “era ao mesmo tempo inventor e repetidor de ‘estórias’.” E acrescenta: “elas são verdadeiras formações arqueológicas, compostas de camadas e camadas de saber popular, em que dificilmente se distingue o que cada narrador posterior acrescentou, omitiu ou distorceu do conto ‘original’.” Trocando em miúdos isso quer dizer que quem conta um conto aumenta um ponto.
A narração tem o poder da palavra, do som e suas inflexões, aliada ao gestual simbólico do narrador. A narração não é uma declamação, é uma prosa, e sofre modificações conforme o ambiente, a ocasião, a platéia. Um “contador” conhece e utiliza, mesmo que intuitivamente, quase todas as figuras de linguagem ( como metáforas e catacreses ), figuras de sintaxe ( ênfase no pleonasmo ) e figuras de pensamento ( principalmente a hipérbole e a prosopopéia ). Dessa forma, a narração de uma história, de um conto, lenda ou mito, ganha um enorme poder, podemos até mesmo dizer, hipnótico, capaz de transformar a fantasia em realidade, de evocar emoções, de fazer o ouvinte “viajar” nas asas da imaginação. A criança acostumada a ouvir histórias desenvolve e estimula a imaginação, além de também desenvolver o gosto pela leitura e pelas pesquisas.
A leitura deve servir para que se possa ampliar os referenciais de mundo, e não para um acúmulo de informações. Para acumular informações existem os computadores. E para abrir caminho à leitura, nada é melhor do que ouvir as histórias contadas pelos antigos, pelos avós; os “causos” sucedidos com os mais velhos, as novelas míticas tão cheias de magia e encantamento. Contar histórias não é só uma arte que guarda as tradições culturais de um povo, é compartilhar informações de caráter social, lições de moral e costumes, além de fornecer subsídios para uma educação informal.
“Essas narrativas são formas muito especiais de interpretar, analisar e superar os dramas fundamentais da existência humana: a experiência do bem e do mal, da justiça e da injustiça, do amor e do ódio; a existência de normas e proibições, de sanções positivas e negativas; as questões em torno do enigma da vida, de nossa origem, de nossa morte”. (FREITAG, op. cit.)
Antes do advento da televisão, era o rádio quem contava histórias, e reunia ao seu derredor corações e mentes mergulhadas na fantasia. Uma prova disso é a célebre novela radiofonizada por Orson Wells, nos Estados Unidos, em 1940. Wells transmitiu a “invasão da Terra por marcianos” como se ele a estivesse assistindo e a transmissão fosse ao vivo. Usava pobres e improvisados recursos de sonoplastia, contudo criativos; e os efeitos sobre os ouvintes foram de um tal realismo que provocou pânico geral na população, e entrou para a história!
Pelo final da década de 50, início de 60, havia um programa numa emissora de rádio do Rio de Janeiro que, se não me falha a memória, chamava-se “Histórias de Trancoso”. Antigamente, muita gente se referia as “Histórias de Trancoso”. Gonçalo Fernandes Trancoso1 foi o primeiro cronista português ( pelos idos de séc. XVI ). Naquela época também se falava das “Histórias do Arco da Velha” ou “da Carochinha”. Havia ainda o hábito, gostoso, de ouvir histórias infantis “do tempo em que os bichos falavam”, como dizia o narrador(a). A coqueluche, porém, eram as radionovelas como a quilométrica “O Direito de Nascer”; e as minhas preferidas: “Gerônimo, o Herói do Sertão”, novela de Moisés Weltmam ( 1957-1965 ); “O Anjo”( 1959 ) personagem criado por Álvaro Aguiar, (talvez inspirado no herói norteamericano “O Santo”); “Radar, o Homem do Espaço”, no estilo Flash Gordon.
Com a chegada da televisão, o rádio perdeu muito de seu encanto, seu feitiço e magia, e ouvir histórias ao pé do rádio deixou de ser o programa da família. O Contador de Histórias, que vivia por detrás das válvulas e altofalantes, abandonou a desconfortável moradia e mudou-se para a nova mídia: foi ser autor de novelas televisivas. E o brasileiro adquiriu o hábito que de comentar as novelas exibidas na TV; contar para um amigo(a) os capítulos perdidos, e, principalmente, se deixar envolver pelos personagens e pela trama, ao ponto de confundir o ator ou atriz com a personagem. Isso revela como a fantasia exerce uma força muito grande sobre as pessoas, e que o homem contemporâneo, que convive com a avançada tecnologia, ainda guarda um porção significativa do homem medieval, basta ver o aumento da crença em patuás, amuletos, videntes, etc.
Hoje as emissoras de rádio já não apresentam mais novelas radiofônicas, o que ao meu ver é uma bobeira de seus diretores, pois público com certeza existe. Outra coisa lamentável nas programações das rádios atuais, é a ausência de um segmento dirigido especificamente para o público infantil, como por exemplo, um programa de histórinhas infantis. Até há poucos anos, aqui em Belém, a Rádio Cultura apresentava um excelente programa para as crianças, denominado “Abracadabra”, que sumiu como num passe de mágica: Abracadabra!...
Toda criança gosta de ouvir histórias. A fantasia lhes é saudável e necessária como o ato de brincar. Para elas brincar é exercitar a imaginação. Mesmo que a criança tenha acesso aos discos e fitas, ou aos livros, a TV, ao vídeo, ao computador, não dispensa a participação de um adulto como narrador “ao vivo”, aspergindo a magia da oralidade, na hora de dormir.
Como dizia minha avó:“Entrei pela perna do pato, saí pela perna do pinto, quem quiser que conte cinco...”.
1 -Veja-se: História de Trancoso. Ed. Cátedra, 1983.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O Professor, este alquimista.

A alquimia é uma expressão que pode assumir várias conotações e significados, segundo a situação e contexto na qual empregada, e tem a ver com a atitude do ser humano em busca de sua evolução e transcendência.
No início dos anos 1990 me ocorreu que nosso papel, como professores, é exatamente igual ao dos alquimistas antigos: a transformação do carvão negro da ignorância em luminoso e cristalino diamante, pelo fogo do conhecimento e do saber. Isso é como a busca pela pedra filosofal e pelo elixir da longa vida. Assim, em homenagem ao Dia do Professor (15 de outubro), que por coincidência é a data de meu natalício, escrevi o acróstico abaixo, com o qual celebro minha condição e homenageio a todos que exercitam-se nessa prática.

O ALQUIMISTA

Palavras e pedaços de giz
Riscando feito arado
O fértil e ignoto solo
Fazem a semeadura e a colheita
Enchem espaços infinitos
Solvem a mais dura substância.
Sejam, pois, benditos
Os que magicamente transmutam
Riscos de giz e palavras em homens.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Softwares educativos e objetos de aprendizagem ou aulas com discurso, quadro e giz? A escolha é sua, Professor!

Texto adaptado do original, publicado na apostila do Curso de Linux Educacional 2008, do Núcleo de Informática Educacional-NIED/Belém.

É condição indispensável para lidar com o paradigma educacional emergente ser um professor com espírito reflexivo, criativo e pesquisador. Franz.

Diante das novas configurações de mercado e das interações sócio-culturais desencadeadas pelas tecnologias da informação e comunicação (TIC), com ênfase nas mídias baseadas em rede de computadores, o modelo de escola vigente encontra-se em uma posição incômoda: de um lado sustenta uma arcaica estrutura fracassada e desinformadora, que finge ser formadora de cidadãos críticos e participativos; de outro, pretextando acompanhar a modernidade, tenta adotar novas maneiras de pensar e de conviver na sociedade do século XXI a partir da inclusão da Informática no chão da escola. Essa postura conservadora ante o inevitável avanço das TIC no processo educativo é danosa para o projeto político-pedagógico da escola, pois muitas vezes o uso da sala de informática está muito distante de seu caráter pedagógico.
De acordo com as teorias sócio-construtivistas de Piaget, Vigotsky, Ausubel e outros, a tecnologia Informática apresenta uma gama de recursos capaz de contribuir para transformar a escola num espaço que privilegia a construção colaborativa de conhecimento e a relação professor-aluno, enquanto oportuniza ao professor oferecer uma aula mais dinâmica e produtiva, ao mesmo tempo em que amplia as oportunidades para o aluno apresentar uma performance maior como aprendiz. Sem falar que tende a desenvolver algumas das inteligências múltiplas apontadas por Howard Gardner. Porém, um dos grandes problemas para quem lida com a informática aplicada a educação é a seguinte questão: como associar um rico conteúdo didático a um programa que ensine e divirta ao mesmo tempo?
Isso exige conhecimentos que vão além da formação tradicional do professor, e para os quais as próprias Universidades ainda não estão preparadas. Eis porque a formação continuada é tão importante e necessária! Nessa perspectiva surgiram os programas de caráter didático-pedagógico, como os Softwares Educativos e Objetos de Aprendizagem.

Softwares ou Programas Educativos

Um “software educacional deve ser conceituado em referência à sua função, e não à sua natureza” (leia o original), mas de forma geral, podemos considerar software educativo todo programa de computador que utiliza uma metodologia que o contextualize no processo ensino-aprendizagem. Porém, há aqueles criados para outros fins que acabam servindo aos propósitos pedagógicos como, por exemplo, o editor de texto e a planilha eletrônica.
Por outro lado, um objeto de aprendizagem(OA) pode ser considerado "qualquer entidade, digital ou não digital, que possa ser utilizada, reutilizada ou referenciada durante o aprendizado suportado por tecnologias" (esse é um conceito muito amplo que ainda está em construção), mas nessa perspectiva podemos afirmar que todo software instrucional é um objeto de aprendizagem.
Na Wikipédia lemos que: “Um objeto de aprendizagem pode ser usado em diferentes contextos e em diferentes ambientes virtuais de aprendizagem, para atender a esta característica, cada objeto tem sua parte visual, que interage com o aprendiz separada dos dados sobre o conteúdo e os dados instrucionais do mesmo. A principal características dos objetos de aprendizagem é sua reusabilidade, que é posta em prática através de repositórios, que armazenam os objetos logicamente, permitindo serem localizados a partir da busca por temas, por nível de dificuldade, por autor ou por relação com outros objetos”.
Noutro site (acessado em 12/04/2007), encontramos que há diferentes modalidades de classificar os softwares usados em educação, uma delas é apresentada por como Tutor, Ferramenta e Tutelado: Como Tutor, o computador dirige o aluno, desempenhando praticamente o papel do professor. Esta modalidade foi e ainda é bastante utilizada e desenvolveu-se a partir dos pressupostos da Instrução Programada. Como Ferramenta os alunos aprendem a usar o computador para adquirir e manipular informações, utilizando muitas vezes softwares de uso genérico em outras áreas, como: processadores de texto, planilhas, banco de dados, etc. Já na forma Tutelado seriam classificados os softwares que permitem ao aluno ensinar o computador.
Outra classificação considera alguns softwares enquadrados em dois modelos: Tutorial e Exercício-e-Prática. No primeiro, o aluno recebe informações sobre o tema e segue linearmente as instruções até obter resultados pré-estabelecidos, geralmente em termos de certo ou errado. O segundo se caracteriza por apresentar uma seqüência de exercícios com respostas imediatas cujo objetivo é a fixação de conteúdos, ou seja, meros exercícios num “livro digital”, algo como o antigo “arme e efetue”.
Ao desenvolver atividades pedagógicas com suporte computacional, é recomendável trabalhar na perspectiva de projetos, que nos parece melhor possibilitar a ocorrência do ciclo “descrição-execução-reflexão-depuração”, descrito por Valente (1993) como um conjunto de ações que o aluno realiza na aquisição de novos conhecimentos, e acontece quando diante de um problema ele descreve o que pretende fazer para resolvê-lo, executa esses passos ou planejamento, reflete sobre dos resultados obtidos, busca novas informações para melhorar ou depurar os resultados, finalmente faz nova descrição. O ciclo se repete cada vez que ele rever a ação.

A proposta desse pequeno texto é oferecer uma visão introdutória sobre classificação e características de softwares educacionais e objetos de aprendizagem, instrumentalizando o leitor para que possa empregar as tecnologias baseadas em artefatos computacionais em suas atividades de ensino-aprendizagem. Contudo, é importante registrar que nenhum software educativo ou objeto de aprendizagem pode ser considerado, por si só e em termos absolutos, didática e pedagogicamente bom. É a maneira como o professor irá empregá-lo que determinará a exploração de todas as suas potencialidades pedagógicas e seus efeitos na superação das dificuldades de seus alunos.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Anistia para Wilson Simonal!!!

Comecei esta semana lendo uma página da Folha de S. Paulo de 24/03/2008, com uma reportagem sobre o filme "Ninguém sabe o duro que dei", documentário sobre o grande e injustiçado artista que foi Wilson Simonal(26/02/1939 – 25/07/2000), que o humorista Cláudio Manoel, do Casseta&Planeta, vai apresentar durante o festival "É Tudo Verdade".
Sou fã de carteirinha de Wilson Simonal desde a década de 1960. Seu estilo de cantar, bem suingado, contagiante, fez surgir um ritmo chamado de “Pilantragem”, criado por ele e Carlos Imperial, e que gosto muito até hoje. Em 1969 eu era estudante na Escola Técnica Celso Suckov da Fonseca, em São Cristovão, e de vez em quando freqüentava o Maracanãzinho, ali quase do lado (e quase quase fui assistir a antológica apresentação de Simonal no 4º Festival Internacional da Canção, de que fala a reportagem). Mas assisti pela TV. Também assisti ao "Show em Simonal", programa que ele apresentava pela Record, bem como às suas apresentações em programas de televisão, como os de Flávio Cavalcanti.
Certa vez, logo depois do serviço militar, fui trabalhar como vendedor de livros para uma distribuidora na Rua México, 111, no Centro. Era o ano de 1972, e nossa equipe foi para o Bairro do Jardim Botânico, bem em frente a Vênus Platinada. Eis que vejo Simonal saindo do prédio da Globo. Não titubeei: corri para pedir um autógrafo, e fiquei admirando a originalidade da sua marca: o "S" de Simonal era desenhado como uma clave de Sol. Naquele ano que o barraco desabou sobre ele!..
Acusado, injustamente, de ser um informante do DOPS entre os artistas, foi posto em completo ostracismo. O meio artístico lhe virou as costas, nenhum músico quis mais tocar com ele, quando tocavam não queriam seus nomes no disco. “Negro e de origem humilde, era um gigante como cantor, e permaneceu injustiçado durante todo o resto de sua vida” (leio o texto original aqui)
Depois, com a dita “abertura política”, anistiaram presos e exilados do regime militar, bem como seus torturadores, porém Simonal nunca foi beneficiado por essa ou qualquer outra anistia. Bem mais tarde, alguns artistas tentaram resgatá-lo deste degredo. Chico Anísio foi um deles, e escreveu um texto honrando-lhe a memória (leia aqui).
Em dezembro de 2007, lhe presto uma singela homenagem em meu podcast, postando a canção "Nem vem que não tem”, que lançou oficialmente a Pilantragem. Lá, digo que "Simonal é o exemplo mais marcante e vergonhoso de como no meio artístico existe muita inveja, ódio e hipocrisia e toda homenagem que lhe prestarem ainda será pouca".
Simonal deixou um espaço na boa música brasileira que nunca será preenchido, infelizmente! Como fã de seu trabalho, digo que o que ele representou para a nossa MPB ainda não foi escrito, mas esse documentário pode significar o início de um processo de reconhecimento justo e merecido para esse grande artista, músico, compositor e show-man.
Ei, seu Casseta, quero ver o filme!
No TOP BLOG 2011 ficamos entre os 100 melhores da categoria. Pode ser pouco para uns, mas para mim é motivo de orgulho e satisfação.
Sou muito grato a todos que passaram por essa rua que é meu blog e deram seu voto. Cord ad Cord Loquir Tum